A hora e a vez dos frutos do mar

22/08/2007

A hora e a vez dos frutos do mar

Os biomas costeiro e marinho podem não ser os mais extensos, mas são marcantes na Bahia, estado com o maior litoral no Brasil. A exemplo do que ocorre ao longo de toda faixa litorânea brasileira, na Bahia a maior concentração populacional está também na costa, usufruindo e exaurindo os recursos dos ecossistemas desta área, mas o conhecimento e as ações de uso ordenado ainda são escassos. Prova disso é que há poucas referências aos dois biomas quando se fala das riquezas naturais do estado. Muito interligadas entre si, a Zona Marinha e a Zona Costeira precisam de cuidados e, se bem geridas, podem gerar divisas, empregos e crescimento na costa baiana.

O bioma Costeiro, situado na área de transição entre os ambientes terrestre e marinho, é formado por uma combinação de diferentes ecossistemas, como manguezais, restingas, dunas, praias, costões rochosos, brejos, falésias e estuários, entre outros ambientes, com características que variam de região para região ao longo do litoral brasileiro. No Nordeste, o manguezal se destaca por sua importância no ciclo reprodutivo da vida marinha e por ser fonte de subsistência para populações litorâneas. Apesar disso, é um ecossistema que vive ameaçado por agressões constantes, como aterramento para construção civil e industrial, despejo de lixo e esgotos, entre outras ocorrências que demonstram a ignorância a respeito de sua relevância e fragilidade.

O manguezal tem um aspecto pouco atrativo, com suas árvores de raízes aéreas e galhos retorcidos, o solo formado pela lama escura e cheia de matéria em decomposição. Mas é neste cenário de abundante matéria orgânica que vive imensa população de crustáceos e moluscos, que abriga diversos animais marinhos em fase de reprodução, recebe filhotes de peixes e camarões durante a fase de crescimento, serve de pouso para aves migratórias, sendo também fonte protéica na mesa das populações marisqueiras. Os microorganismos e as substâncias nutritivas presentes no mangue enriquecem as águas do mar, fazendo parte da base da cadeia alimentar do bioma marinho. Até então o valor do manguezal vem sendo explorado irresponsavelmente, com extrativismo predatório – além dos animais, as árvores e o solo argiloso são utilizados pelo homem sem respeito ao ciclo natural de regeneração.

ZONA MARINHA  - A Zona Marinha compreende os mares que se estendem por cerca de 320 km além da costa, delimitando a região que constitui a Zona Econômica Exclusiva brasileira, na qual o Brasil tem direito garantido sobre a exploração dos recursos naturais.

A variedade da vida no fundo do mar tropical que banha a costa baiana é incalculável e recebe o impacto de atividades como a pesca, a navegação, a atividade portuária, a exploração petrolífera, a urbanização e a especulação imobiliária, o lazer e o turismo. Na tentativa de levantar informações sobre este rico bioma, o CRA hoje é responsável pelo monitoramento intensivo da Bahia de Todos os Santos, depois do episódio da "maré vermelha", que provocou a morte de toneladas de pescado e deixou milhares de famílias sem sua principal fonte de sustento entre os meses de março e abril.

De acordo com o secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Juliano Matos, é com base nessas observações e análises que o estado poderá atuar para estabelecer o equilíbrio entre os estoques pesqueiros e a demanda do extrativismo primário (pescadores e marisqueiras). No sentido de incrementar o segmento pesqueiro do estado, existe o programa Bahia Pesca, com o objetivo desenvolver o potencial da aqüicultura e da pesca. O programa já tem quatro ações em andamento, entre pesquisa e mapeamento do potencial pesqueiro e instrumentalização da pesca em pequena escala, com agregação de valor e benefício para pescadores e marisqueiras.


Cerrado e caatinga, uma Bahia desconhecida

O cerrado e a caatinga ocupam boa parte do território baiano, mas até hoje o conhecimento sobre estes biomas é escasso. Com diferenças muito profundas entre clima, relevo e espécies nativas, os dois biomas têm em comum a aniquilação de suas características em virtude do avanço da pecuária e de lavouras de monocultura.

O cerrado é uma espécie de "savana brasileira", localizado principalmente na região central do país. Na Bahia, ocupa a porção oeste do estado, onde o crescimento econômico vem tendo como base a cultura da soja, do milho e do algodão. Por causa de lavouras como estas e também em virtude do desenvolvimento da pecuária, o bioma foi drasticamente reduzido e ameaçado. Atualmente, suas áreas estão entre as prioridades no desenvolvimento de unidades de conservação.

No cerrado, o clima é tropical, com uma forte estação seca, solo pobre e grande potencial hídrico: é onde está localizada a Bacia do Rio São Francisco. Em virtude da imensa quantidade de espécies adaptadas às condições adversas de escassez de nutrientes e altas temperaturas, o bioma também é um hotspot. Os ecossistemas do cerrado vão desde o aspecto de "floresta", o chamado cerradão, passando por formas intermediárias, como o cerrado propriamente dito, até um aspecto de campo, com gramíneas e poucas árvores, chamado campo limpo.

A vegetação do cerrado oferece plantas que podem ser utilizadas na alimentação humana, assim como para ração animal, na indústria (mamona, principalmente com o biodiesel), para ornamentação (cactáceas nativas e helicônias, entre outras), além de aplicações na indústria farmacêutica para produção de novos medicamentos. Além disso, de acordo com estudos da Embrapa, os frutos das espécies nativas do cerrado têm um elevado valor nutricional, além de atrativos sensoriais como cor, sabor e aroma peculiares e intensos, ainda pouco explorados comercialmente.

O bioma da Caatinga, por sua vez, é o principal da Região Nordeste, estendendo-se pelo domínio de climas semiaacute;ridos. "É um bioma ainda pouco conhecido, comparado às suas dimensões e à relevância sócio-ambiental. Apesar de estar localizado em áreas de condições pouco favoráveis para os seres vivos de um modo geral, com escassez de água e altas temperaturas, apresenta grande variedade de paisagens, relativa riqueza biológica e endemismo (espécies que existem somente neste bioma). A ocorrência de secas periódicas estabelece regimes intermitentes aos rios e deixa a vegetação sem folhas, cuja folhagem volta a brotar e fica verde nos curtos períodos de chuvas. Há também presença marcante de espécies que apresentam adaptações para reservar água, como os cactos, ou para minimizar sua evaporação, com folhas que se assemelham a espinhos. Contudo, a caatinga reserva suas "ilhas de umidade" e solos férteis, chamados brejos, próximos Da mesma forma que outros biomas brasileiros, a caatinga já sofreu grandes alterações em suas feições originais, em função da exploração de seu espaço para fins agropecuários. O Ibama avalia que cerca de 80% das terras catingueiras encontram-se afetadas por ações antrópicas e o mau uso dos recursos tem promovido a desertificação de diversas áreas. O resultado são perdas da diversidade da flora e da fauna, acelerada erosão e queda na fertilidade do solo e da quantidade de água.

Ainda assim, de acordo com a pesquisadora Milene Castellen, da Embrapa, tanto o cerrado quanto a caatinga reservam um grande potencial frutífero, medicinal, madeireiro e faunístico, comum à infinidade de produtos que podem ocupar um nicho voltado para o desenvolvimento sustentável da região. "Além da tradicional caprinocultura praticada na Caatinga, podemos citar a exploração do potencial ecoturístico, exploração de fruteiras nativas para indústria de sucos e confecção de d