Governo vai incentivar fabricação de biodiesel de mamona no Nordeste
A produção de mamona na região do semi-árido brasileiro (Nordeste e parte de Minas) será a base do projeto de fabricação de biodiesel a partir de oleaginosas do Programa Combustível Verde. O modelo do projeto a ser desenvolvido foi apresentado pela ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, na Conferência Regional sobre Energias Renováveis. Ela prevê a estruturação de núcleos de produção estabelecidos em áreas de 10 mil hectares, que abrigarão 16 células de produção, cada uma com 35 famílias. Segundo Dilma, a meta é assentar, até 2010, 153 mil famílias em 274 núcleos de reforma agrária no semi-árido. "É um projeto com vetor claramente social, com viabilidade econômica", disse a ministra. O estudo estima ser possível gerar 1,35 milhão de empregos com a iniciativa.
O projeto prevê que uma planta de biodiesel, com capacidade para processar 400 toneladas/dia, será instalada para processar a produção de 20 núcleos. Cada um deve responder por até 5 mil toneladas de mamona/ano. Um dos critérios para definir as cidades que receberão as plantas é a proximidade de portos, para facilitar o escoamento da produção. O Projeto Biodiesel tem como meta a produção de 1,5 milhão de toneladas/ano a partir de 2010.
Resistência à seca
O desenvolvimento da produção no semi-árido alia aspectos sociais e econômicos. A região, com um dos mais baixos indicadores sociais do País, é considerada campo fértil para uma cultura que tem como principal característica a resistência à falta de chuva. Estudos da Embrapa Meio-Norte, em Teresina (PI), apontaram que a mamona precisa de 300 a 400 milímetros de chuva durante seu ciclo, de cinco meses, enquanto no semi-árido a média de precipitações gira entre 600 e 700 milímetros no período, índice que cai para 400 milímetros na seca.
O estímulo à cultura já está sendo levado a campo no Ceará, onde, em agosto, governo e indústrias firmaram uma parceria que tem como objetivo cultivar 70 mil hectares até 2007, o suficiente para produzir 28 milhões de litros de combustível. A base do projeto é a chamada Plataforma da Mamona, desenvolvida pela Embrapa Algodão, de Campina Grande (PB), que prevê a implantação de 400 mil hectares no semi-árido até 2007. A unidade estima que existem 4 milhões de hectares apropriados para o cultivo na região.
A primeira etapa do projeto cearense, que será desenvolvida ao longo de 2004, prevê o cultivo de 10 mil hectares por cerca de 6 mil famílias de pequenos agricultores em áreas de um a três hectares, consorciadas com feijão. Uma das parceiras do projeto, a Sant’ana Sementes, do Rio Grande do Norte, se comprometeu a pagar no mínimo R$ 0,54 pelo quilo do produto.
Com base nas projeções feitas, a Secretaria da Agricultura e Pecuária do Ceará (Seagri) estima que o cultivo de dois hectares de mamona pode resultar em renda líquida de R$ 800 mensais - considerando uma produtividade de 990 quilos por hectare. O Ceará planta atualmente 1,8 mil hectares de mamona, mas na década de 70 a lavoura chegou a 60 mil hectares. Na época, o Brasil era o maior produtor e exportador mundial de óleo de mamona.
No Norte, a mamona, ao lado do dendê, é uma das matérias-primas do Projeto de Bioeletricidade da Eletrobrás, que começará a ser implantado no Amazonas. O objetivo do programa, apresentado em junho, é substituir progressivamente o diesel por biodiesel na geração de energia nos 91 sistemas isolados da Centrais Elétricas do Amazonas (Ceam), que fornece o insumo para todo o estado, menos Manaus. O acordo concede à Eletrobrás direito a créditos de acordos internacionais.