Construção civil e green building

29/08/2007

Construção civil e green building

As tecnologias limpas ou verdes e sua promessa de garantir sustentabilidade ao meio ambiente chegaram para ficar. Independentemente do porte ou do segmento, as empresas que não priorizarem em seus negócios os princípios de gestão ambiental perderão espaço no disputado mercado competitivo.

O padrão econômico baseado no consumo exagerado de recursos naturais que levam ao esgotamento das fontes naturais de matéria-prima cedeu ao apelo do ecologicamente correto. O debate acerca da transição de um paradigma econômico para uma mentalidade mais ecológica adotada pelo mercado, desde os anos 90, é caloroso e gera questionamentos pertinentes. Múltiplas análises tentam dar respostas à pergunta que não vai calar. Mas, ao largo das teorias e discursos, todos os setores do mercado são unânimes em afirmar que a sustentabilidade ambiental é um caminho sem volta adotado para garantir vida longa aos recursos naturais e para a própria sobrevivência empresarial.

Uma mudança de rumo é observada de fato e, diferente de anos atrás, qualidade de vida hoje rima com consciência ecológica. O setor construção civil da Bahia já foi afetado pelas mudanças. Tradicionalmente as construções sempre deixaram para trás toneladas de resíduos ao final das obras. Um lixo muitas vezes sem destino certo. Mas o comportamento está mudando. Antenado com as transformações, a bola da vez na construção civil são as construções verdes.

O diretor técnico da Ademi (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia), Luciano Muricy Fontes, informou que a conscientização neste setor começa na própria obra que ganhou cuidados como programas de gestão de resíduos sólidos. “Com isso, separamos e organizamos as sobras, como madeira e ferro, que são reaproveitados”. Além disso, o diretor técnico disse que existe, sim, uma tendência no mercado para os chamados empreendimentos imobiliários ecologicamente corretos.

“Além de produtos que façam economia ou reduzam os impactos ambientais, a construção civil está criando outros mecanismos com esta preocupação. Uma prova disso é o convênio que a Ademi tem com a Coelba para estimular as empresas a usarem o aquecimento solar. Já temos cinco obras em Salvador com esta preocupação e a tendência e repetir este número anualmente”.

No perfil do green building figuram estratégias que vão desde novas abordagens para a utilização do solo até a detalhes do projeto arquitetônico, que prevê a adoção de soluções para reduzir o impacto ambiental. Os benefícios para a natureza e para o homem são um melhor aproveitamento dos recursos naturais como água e energia solar, com conseqüente redução de consumo de ambos, proteção dos ecossistemas e oferta de maior qualidade de vida aos usuários. Nas construções, o preço para implantar um projeto verde pode até ser mais caro, mas empreendedores e consumidores garantem que vale a pena pagar o ônus.

Há cinco anos o aumento do custo para a construção de um edifício com o uso de tecnologias limpas era estimado em 8%. Hoje este valor gira em torno de 3% a 5%.

A informação é do conselheiro do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon), Thales de Azevedo Filho. Ele afirma que é um percentual insignificante, uma vez que o mesmo é compensado pela redução do custo de operação e manutenção do imóvel, que gira em torno de 15% a 20%. O diretor comercial do Grupo Fator, Marco Antonio Chompanidis, que prevê para 2009 o lançamento do edifício verde Amazon, o primeiro totalmente ecológico na Bahia, concorda. "Em um empreendimento com essa proposta temos baixa manutenção e pouca reclamação dos clientes," pontua.

O Amazon pretende ser um refúgio em meio à selva de pedra erguida no novo centro financeiro da capital baiana e, provavelmente em pouco tempo, um dos pedaços mais caros da cidade. O megaempreendimento com 25 pavimentos é um dos quatro que o Grupo Fator está construindo no Loteamento Aquarius, próximo à Avenida Tancredo Neves.

No leque de ações verdes adotadas destacam-se a captação de energia solar para o aquecimento de água; o acionamento de energia dos ambientes das áreas comuns com cartão magnético; as caixas sanitárias com dois estágios de acionamento e captação da água da chuva para utilização em áreas comuns (ambos para economizar o consumo de água); a estrutura para coleta seletiva de lixo; e a utilização de madeiras com certificado de reflorestamento.

A construtora Odebrecht adotou também a linha ecológica em alguns dos seus empreendimentos. No Mundo Plaza, complexo que mistura shopping, moradia e empresas em um mesmo lugar, uma única central de ar condicionado que irá atender aos dois prédios, tanto a torre residencial quando a torre empresarial. O sistema utilizará a energia produzida pelo calor liberado da central de ar condicionado do shopping para o aquecimento da água nos apartamentos. Ou seja, "os moradores do residencial não usarão aquecedores a gás para ter água quente", explica César Bahia, gerente comercial e de engenharia da Odebrecht. Como o consumo do ar condicionado no shopping é mais intenso pela manhã e o consumo da água aquecida tem seu horário de pico à noite, o equilíbrio do sistema é garantido. Isso significa redução de até 40% no consumo de energia. O Mundo Plaza deve ser inaugurado em 2010.

Para Thales de Azevedo Filho, do Sinduscon, a indústria da construção civil experimenta uma fase de transformação nos seus métodos, conceitos e critérios. Mas para o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi), Luis Augusto Amoedo, as mudanças só serão percebidas no âmbito dos grandes empreendimentos, pois "70% da construção na cidade é feita de maneira irregular. São puxadinhos, obras sem licença e invasões", diz.

A preocupação com a sustentabilidade, lembra Azevedo, não se limita a como construir agora, mas como fazer a "desconstrução", daqui a 100 ou 150 anos. "O que faremos com todo o material e que impactos serão causados?" pergunta. Atento a esta questão, o sindicato está criando o Centro de Materiais Excedentes, para receber das construtoras sobras ou excedentes de materiais, que ficariam indefinidamente estocados em almoxarifados ou depósitos e sem previsão de uso.