Tudo indica que o surto de mal de Chagas não vai atingir a Bahia _ pelo menos se o consumo estiver atrelado ao açaí e o processo de trituração. Como a fruta proveniente do Pará _ estado onde a doença se alastra _, é processada e congelada antes de chegar à Bahia, é impensável, segundo a Vigilância Sanitária do Estado, que o tripanossoma cruzi, protozoário encontrado no barbeiro e responsável pela doença, possa estar misturado à fruta comercializada em Salvador.
As discussões sobre o assunto tiveram início desde o começo da safra de açaí, quando o Pará sofre um novo surto da doença. A causa é que o barbeiro tem sido triturado juntamente com o fruto durante a extração da polpa. O estado registrou uma morte e 36 doentes desde o início do ano. Este mês, três ocorrências foram registradas.
Outro motivo que faz o contágio ser improvável é que o cultivo do açaí na Bahia é pouco significativo economicamente, segundo a Secretaria Estadual de Agricultura (Seagri) _ ele serve apenas para subsistência e pequeno comércio. O fato serve de alento para a população, que, segundo informam os comerciantes, não costuma questionar a origem da fruta, nem a forma de preparo do açaí na tigela ou em forma de suco.
Nas lanchonetes visitadas pela reportagem do Correio da Bahia, a maioria dos clientes não demonstrou preocupação com o consumo. O turista espanhol Ivan Luis Quevedo Rodríguez, 40 anos, é um dos que não se preocupam. Conheceu o açaí no Brasil e aderiu ao consumo. “Eu tomo o suco do açaí todos os dias.
Gosto realmente do sabor”, conta, dizendo em seguida que nunca procurou saber como se dá o preparo do suco. A administradora Carla Costa, 34 anos, diz que deixou de consumir sucos e a fruta desde que a imprensa publicou a contaminação do caldo de cana. “Mas antes disso, quando eu costumava tomar, eu não me preocupava com a origem”, declara.
Nas quatro lanchonetes visitadas pela reportagem, todas localizadas na Barra, os funcionários mostram que a base de preparo do açaí, felizmente, é a polpa proveniente do Pará. Normalmente são adquiridas barras de polpa de um quilo. “Nós quebramos a barra e batemos a polpa no liqüidificador para servir o suco ou na tigela”, explica a funcionária de uma das lanchonetes, Simone Costa. Em Salvador, existem mais de 1,7 mil lanchonetes, destas 30 comercializam açaí na tigela.
Polpa passa por processo industrial
Com base na procedência da fruta, que já chega do Pará processada industrialmente, a nutricionista e técnica da Vigilância Sanitária do Estado, Rosa Brown, acalma os ânimos dos mais receosos. “Essa polpa congelada já foi processada e submetida a processos industriais”, explica. Como o alimento é submetido a altas e baixas temperaturas alternadamente, continua, não existe a possibilidade de que o transmissor da doença de Chagas sobreviva.
Ainda segundo a técnica, haveria possibilidade de contaminação, como ocorre no Pará, se o processo de preparo e consumo fosse in natura. “In natura é quando se consome diretamente a fruta, sem processá-la. Nesse caso, é mais fácil haver contaminação”, acrescenta.
Na Bahia, a fruta é comercializada apenas no baixo sul do Estado, na região de Valença e Ilhéus. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Agricultura, trata-se de cultivo para subsistência e comércio local _ o que indica que, provavelmente, o açaí consumido em Salvador não é preparado in natura como a cana-de-açúcar. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Agricultura não informaram se existe comercialização do açaí in natura entre o Pará e a Bahia. Em março de 2005, uma situação semelhante ocorreu em Santa Catarina, quando dezenas de pessoas se contaminaram pela doença depois de consumirem caldo de cana.
CARMEN AZEVÊDO