Qualidade, uma estratégia para frear queda do consumo

28/11/2003

Qualidade, uma estratégia para frear queda do consumo

Reunidas em encontro na Bahia, entidades revelaram preocupação com a retração no mercado interno.

 

Melhorar a qualidade do café consumido no País, e assim estimular o aumento do mercado interno, alongar o prazo para quitação de débitos do setor produtivo, foram duas prioridades confirmadas durante o encontro de governo e produtores no 11º Encontro Nacional do Café (Encafé), que reuniu em Sauípe, na Bahia, integrantes da indústria, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Secretaria da Agricultura do Estado da Bahia (Seagri).

A partir de janeiro o setor deve destinar R$ 30 milhões para promover a melhoria do café consumido e elevar as exportações.

Queda no consumo interno

De acordo com o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), Nathan Herszkowicz, a queda no consumo interno é o maior problema de produtores e industriais do café, nos últimos anos. Dados da Abic revelam que o consumo per capita de café torrado, de 3,73 quilos, em 1999, cresceu para 3,91 quilos em 2001, e caiu para 3,86 quilos no ano passado. "A causa do problema está na queda da qualidade, o que faz consumidores migrarem para concorrentes, como sucos, refrigerantes, achocolatados e chás", explica Herszkowicz.

Ele acredita que o mercado de varejo de café no Brasil deve fechar o ano com R$ 3,8 bilhões, valor semelhante ao verificado no varejo de água, refrigerantes e bebidas alcoólicas. "Pesquisa encomendada pela Abic sobre o posicionamento do cafezinho na memória do consumidor revelou que ele é a segunda opção de bebida, depois da água. É uma das mais populares bebidas do País e temos que cuidar para manter essa tradição junto às novas gerações", afirmou.

Melhora da qualidade

Para isso, a Abic está lançando o Programa Qualidade do Café (PQC), um selo que esclarece ao consumidor o tipo de café consumido, e impede a venda de produtos com qualidade inferior ao tipo 8. Para Herszkowicz, a adesão maciça revela o interesse do setor industrial de se preparar para o novo momento econômico, a retomada da atividade econômica, apostando no Programa de Qualidade do Café (PQC) como o instrumento para impulsionar as vendas do café no País. A perspectiva de crescimento, detectada em pesquisa do IBGE e apresentada nesta semana, estimula a adoção do programa.

O PQC foi o grande tema do 11º Encafé e teve formato final definido no evento. Juntamente com o Projeto de Aumento de Consumo Interno de Café (Pacic), o programa é a grande aposta da ABIC para elevar as vendas internas, de 13,5 milhões de sacas neste ano, para 16 milhões em 2006, prazo final do projeto. Os recursos para o Pacic deverão vir do Pronaf, enquanto o PQC será implantado pela própria indústria de café. Os dois programas devem entrar em vigor já a partir de janeiro de 2004.

O Conselho Deliberativo da Política do Café (CDPC), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, reunido durante o 11° Encafé, reforçou a recomendação para que o Grupo de Trabalho do Café faça os estudos para criar uma política de médio e longo prazos para o setor. A proposta coincide com a defesa da Abic de criação de uma política de base para todo o segmento cafeeiro, em oposição a medidas pontuais como retenção de estoque, por exemplo. Enquanto se esboça esse conjunto de ações, os conselheiros concordaram com a proposta de solicitar o adiamento do pagamento das dívidas de curto prazo da cafeicultura, avaliadas em quase R$ 1 bilhão. Na segunda-feira, o ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, reuniu-se com seu colega da Fazenda, Antônio Palocci, para solicitar a prorrogação por 60 dias do pagamento da dívida. Nesta quarta-feira, o Grupo de Trabalho Interministerial terá reunião para iniciar discussões. Participam representantes do governo e de todos os segmentos do setor café.

Estímulo à exportação

Em destaque no encontro, a assinatura do Compromisso com a Qualidade do Café, proposto pela Abic e endossado por entidades do setor, e representantes de organizações e segmentos da cadeia do café. Entre elas, Conselho Nacional do Café (CNC), Cecafé, Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel(ABICS) e ABIC. Assinam o documento o diretor executivo da OIC, Nestor Osório, o secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura, Linneu da Costa Lima, o diretor de comercialização de Commodities do Grupo Pão de Açúcar, Márcio Milan e Antônio de Pádua Nacif, pela Embrapa. Outra pauta foi a adoção de mecanismos de estímulo para a exportação. O setor vai buscar a liberação de R$ 30 milhões de recursos do Funcafé para fazer a promoção do café, que dependem da aprovação do Orçamento da União. São R$ 15 milhões para o marketing interno e o mesmo valor para ''vender'' o café brasileiro no exterior

No documento, também avalizado pelo setor industrial, as entidades e organizações assumem compromisso de promover o consumo de café de melhor qualidade, a partir de melhoria no abastecimento de matéria-prima, industrialização e distribuição ao mercado.

 

Alvaro Figueiredo
 

Galeria: