Vaca louca abre mercado para a Bahia
Expectativa é que a rejeição internacional à carne americana abra fronteiras, incentivando os produtores baianos a exportar
Gilson Jorge
Na mesma semana em que os EUA anunciaram o primeiro caso da doença da vaca louca naquele País, aqui em Barreiras, era inaugurado o primeiro frigorífico da Bahia com condições de atender às exigências do mercado internacional. As duas notícias animaram autoridades e pecuaristas baianos. Com um rebanho de 10 milhões de cabeças de gado o Estado pode, enfim, exportar carne bovina a partir do ano que vem.
A chance de o Brasil ganhar novos mercados para a carne, e de a Bahia pegar carona, é vista como uma oportunidade única. Imediatamente após o anúncio da descoberta da doença, mais de 30 países cancelaram as compras de carne bovina norte-americana. Três deles (Japão, México e Coréia) compravam, juntos, 60% das vendas daquele País.
“Temos que aproveitar o momento, antes que os EUA e o Canadá voltem a exportar”, afirma o presidente da Associação Baiana de Produtores de Novilhos Precoces, Sérgio Lobo, que, apesar do entusiasmo, demonstra alguma apreensão. É que um deslize qualquer, como o não-cumprimento de um contrato, pode criar uma imagem negativa do rebanho nacional.
Por enquanto, o frigorífico inaugurado na semana passada deve abrir as portas para a exportação de carne baiana aos países da chamada “lista geral”, nações que não fazem muitas exigências, mas, por outro lado, pagam menos do que EUA e a Europa. Fazem parte dessa lista a China, países do Oriente Médio e da América Latina. Os primeiros negócios devem ser fechados até o final do primeiro semestre, de acordo com as expectativas da Secretaria da Agricultura (Seagri).
Essa é uma fatia de mercado bem pequena para um País que atualmente lidera a produção mundial de carne bovina. O objetivo é alcançar grandes consumidores, que excluem o Brasil por questões sanitárias. “Para se ter uma idéia, o Chile vende toda a sua produção ao exterior e compra a carne brasileira para consumo interno, economizando 30%”, afirma o diretor de pecuária da Seagri, Plínio Moura.
Mas para ter acesso ao “filé” do mercado internacional de carnes, os produtores baianos vão ter que esperar. Apesar de serem declarados zona livre de febre aftosa, há cinco anos, a Bahia e outros estados certificados estão impedidos de vender aos mercados mais exigentes porque o País, como um todo, não se livrou da doença, que ainda encontra focos no Norte e Nordeste.
POTENCIAL DE LÍDER - A Bahia tem potencial para assumir a liderança nacional na produção de carne bovina. Quem garante é Sérgio Lobo, que também é vice-presidente da Associação Nacional de Produtores de Novilhos Precoces. “Já existe tecnologia no Estado para elevar a produção por hectare. O que emperra é a falta de crédito”, pondera ele, que acredita na possibilidade de elevação da posição baiana do 7º para o 3º lugar em cabeças de gado.
“Recentemente, houve uma missão de empresários espanhóis e israelenses interessados em montar um frigorífico aqui no extremo sul. Mas eles desistiram porque não conseguiríamos manter a produtividade por mais de três meses”, afirma Lobo. Ele se refere à impossibilidade de garantir que o abate de novilhos se mantenha em mil unidades por mês, o mínimo para que a atividade seja atrativa para um frigorífico.
Outro problema apontado pelo pecuarista é a diminuição da área reservada à pecuária no extremo sul. Com a indústria de papel e celulose naquela região, muitos fazendeiros têm preferido cultivar eucalipto em suas propriedades.
Lobo lembra que o êxito das exportações baianas de carne depende também da expansão do número de frigoríficos habilitados para o comércio exterior. “Seria necessário que se instalasse de imediato um aqui no extremo sul”, afirma o pecuarista.
Na região de Barreiras, o novo frigorífico Fribarreiras deve beneficiar os produtores de municípios que ficam num raio de até 100 km da cidade, atingindo cerca de 1,5 milhão de cabeças de gado. O oeste é hoje a segunda maior região produtora de carne da Bahia, com 1,7 milhão de animais – 200 mil ficam em fazendas fora da área de atuação do frigorífico.