Governador vai pedir a Lula diálogo sobre a transposição

31/08/2007

Governador vai pedir a Lula diálogo sobre a transposição

Apesar de ser a favor do projeto de transposição do Rio São Francisco, o governador Jaques Wagner (PT) vai pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a reabertura do diálogo sobre o projeto. Wagner aceitou o pedido de ajuda feito pelos integrantes da Caravana Nacional em Defesa do São Francisco e disse, no final do encontro, ontem, na Governadoria, que vai “mais uma vez levar uma palavra ao presidente no sentido de que ele possa ouvilos. Vou levar esse pedido da caravana de reabertura do diálogo com o presidente”.

Jaques Wagner era ministro das Relações Institucionais do primeiro governo de Lula quando intermediou a crise gerada pela greve de fome do bispo dom Luiz Cappio contra a transposição do rio, em outubro de 2005. A greve acabou quando ele garantiu que o presidente Lula discutiria com o bispo e os militantes antitransposição os problemas do projeto. De acordo com o coordenador do Grupo Ambientalista da Bahia (Gambá), Renato Cunha, o que aconteceu é que o diálogo foi interrompido com as eleições de 2006.

A caravana é formada por militantes e especialistas de vários Estados, numa nova investida do movimento contrário à transposição. O coordenador do Projeto Manuelzão, de Minas Gerais, Apolo Heringer Lisboa, destacou que, se o presidente quiser ouvi-los, “vai escutar coisas que talvez ele não saiba. Por mais que ele seja nordestino e tenha passado sede, ele precisa saber que esta água não é para matar a sede dos nordestinos e que tem alternativas mais baratas e que podem resolver não só a sede mas a economia com a produção da agricultura familiar”, disse.

ÁGUA PARA TODOS – O governador informou que, hoje, anunciará o programa Água para Todos, com recursos de R$ 1,2 bilhão. Ele disse que serão investidos R$ 400 milhões na oferta de água no semiárido com abertura de poços, barragens e instalação de cisternas.

Os outros R$ 800 milhões serão destinados ao saneamento básico. A retomada dos projetos de irrigação do Baixio de Irecê e de Salitre também foi anunciada. O governador destacou que, embora não haja benefícios diretos do projeto de transposição para o Estado, o programa para a revitalização do rio beneficia o território baiano. Ele negou que a revitalização seja contrapartida da transposição, como acham os opositores do projeto. “Não é. Até porque está sendo feito (o programa de revitalização) antes do início das obras da transposição”.

De acordo com o governo, de 2004 a 2006 foram gastos R$ 194,6 milhões, e há previsão de R$ 1,2 bilhão de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O orçamento da revitalização é quase um terço da transposição, orçada em R$ 4,5 bilhões e que ainda contará com R$ 2,1 bilhões do PAC. O projeto prevê a construção de 720 km de canais de concreto para levar até 127 metros cúbicos de água por segundo captados do São Francisco na Barragem de Itaparica (para Eixo Leste) e em Cabrobó (Eixo Norte). Para chegar aos açudes situados nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, a água terá que ultrapassar alturas de até 300 metros, passando por estações de bombeamento.

De acordo com a publicação Transposição – Águas da Ilusão, da Caravana do São Francisco, com R$ 3,6 bilhões seria possível executar as propostas que a Agência Nacional de Águas aponta para resolver o déficit hídrico do norte de Minas Gerais e de nove Estados do Nordeste.Assegurar água para 12 milhões de pessoas que vivem no semiaacute;rido setentrional brasileiro é o que o governo federal pretende fazer com a água a ser retirada do Rio São Francisco. Os especialistas da caravana dizem que o que falta no Nordeste não é água e, sim, gestão dos recursos hídricos. Afirmam ainda que são contra o projeto os povos indígenas, a Comissão Pastoral da Terra, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Articulação SemiAacute;rido, movimentos sociais de sem-terra, trabalhadores rurais, pescadores, pesquisadores e o Banco Mundial.

MAIZA DE ANDRADE