Café de Conquista retoma liderança
Investimentos em tecnologia e pesquisas garantem a posição de vanguarda, mas ainda existem entraves
Juscelino Souza, Vitória da Conquista
Depois de passar 13 anos sem experimentar crescimento, estagnado por uma crise e ultrapassado pelo pólo produtor do oeste baiano, o café do Planalto de Conquista ressurgiu das cinzas, no final de 2003 e retomou a liderança do mercado baiano. A consolidação está alicerçada em investimentos tecnológicos, como modernos sistemas computadorizados de irrigação americanos e israelenses e suporte de pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).
A presença de 17 cafés entre os 30 premiados no II Concurso de Qualidade da Bahia, promovido pela Associação dos Produtores de Cafés da Bahia (Assocafé) e Secretaria Estadual de Agricultura (Seagri), sustentam a dianteira. A remuneração média de 92,3% do valor exportado de café arábica, entre janeiro e novembro do ano passado, também ajudaram, mas isso tudo não significa que a cafeicultura esteja no azul. “O cafeicultor baiano é um herói porque sobrevive, na maioria das vezes, sem ajuda externa”, observa o administrador de fazenda, Joaci Barros.
A ausência de políticas locais, estaduais e federais para a cultura cafeeira do Planalto; a obstrução de um projeto federal para construção da barragem do Rio Pardo, engavetado há exatos 68 anos e a incidência de pragas, como o “bicho mineiro” são alguns entraves localizados no Planalto de Conquista. “Não temos muito de que nos queixar pois, apesar disso tudo, o café tem mantido o preço estabilizado, embora os atuais preços ainda estejam abaixo da performance histórica”, destaca o produtor Crésio Lima.
Carro novo – “No auge da cafeicultura, com 22 sacas de café, a gente podia comprar um carro zero quilômetro”, recorda. Para ele, a crise na cafeicultura teve seu lado positivo “porque eliminou da atividade os aventureiros, deixando apenas quem realmente está no ramo ou entende profundamente do assunto”. Com a baixa remuneração, grande parte dos cafezais tem sido substituída por outras culturas, na Bahia, como soja, no oeste, e café e pasto para o gado, no sudoeste. Dados do Conselho Nacional do Café (CNC) apontam uma queda da área de 500 mil hectares, em 2004, para 1,9 milhão de hectares.
“Isso nos leva a acreditar na extrema necessidade de repensar um modelo de desenvolvimento da cultura do café, especialmente em Conquista, onde essa atividade primária responde por mais de 20 mil empregos diretos”, intervém o vereador Noeci Salgado (PT), autor de Projeto de Lei que defende a criação da Semana do Café no município. Segundo o CNC, as atuais margens dos produtores de café estão 11,23% negativas. Atualmente, a saca de 60 Kg da bebida gira em torno de R$175,00; a bebida Rio, R$ 150 e o consumo interno, R$ 130,00.
BARRAGEM - A construção da Barragem de Inhobim, a 60 km de Vitória da Conquista, deveria referendar a redenção da cafeicultura no Planalto, mas o projeto continua repousando nas gavetas da burocracia desde 1936, ano que coincide com os primeiros estudos sobre o aproveitamento hidrelétrico do Rio Pardo.
De acordo com os estudos, das sete barragens previstas e que englobam as potencialidades de toda a bacia no Estado, uma será em Conquista, na região de Inhobim, maior pólo cafeeiro do município. A concepção da barragem vai beneficiar não apenas Inhobim, mas localidades vizinhas e municípios do pólo cafeeiro, como Barra do Choça e Encruzilhada, totalizando 500 mil pessoas atendidas no novo eldorado.
Uma vez realidade, a obra triplicará a produção de café e ampliará as áreas das lavouras alternativas de urucum, feijão e milho, além de despertar a fruticultura e caprino-ovinocultura. A barragem também deverá criar um pólo de desenvolvimento na região por meio da irrigação de, aproximadamente, 30 milhões de cafeeiros, dos quais 13 milhões já implantados em Inhobim e Barra do Choça. Com isso, em vez de Conquista continuar dependendo da água captada nas barragens de Barra do Choça, ela seria liberada para irrigação de 2 mil hectares na região nativa.
PESQUISAS - Aliado ao suporte da barragem, a cafeicultura tem como esteio as pesquisas científicas da Uesb que, além de ajudar a revitalizar o café, pretende garantir a estabilização da safra, que deve girar em torno de 2,1 milhões de sacas, 400 mil das quais no Planalto. Os trabalhos na Uesb começaram em 1996.
Na avaliação da pesquisadora Sandra Elisabeth de Souza, que teve seus estudos sobre os nematóides reconhecidos pelo Governo Estadual, devido aos resultados positivos para o desenvolvimento da cafeicultura, o volume do crescimento da safra, este ano, é equivalente ao colhido na passada.