Etanol, empresários e infra-estrutura
É necessário criar urgentemente um selo de qualidade social para o produto. Alguns brasileiros e estrangeiros têm atribuído o sucesso do etanol brasileiro à destruição da Amazônia e à mão-de-obra barata ou escrava. Problemas existem e não podemos ficar alheios a eles ("O Ministério do Trabalho libertou 21.296 trabalhadores encontrados em situações análogas às do tempo da escravidão", JB, 1/5/07), mas as pessoas estão confundindo os fatos. Analisemos cada situação. É importante ressaltar que não é o etanol que está destruindo a Amazônia. O Brasil é o sétimo maior emissor mundial de dióxido de carbono (perde somente para China, Estados Unidos, União Européia, Rússia, Índia e Japão), sendo que as queimadas representam 70% dessas emissões, a maioria na Amazônia. Todos sabem que essa destruição sistemática (meio Alagoas por ano) é resultado da ação criminosa de madeireiras ilegais, carvoarias em conluio com algumas siderúrgicas (é óbvio que o carvão não vai para o churrasco domingueiro!) e fazendeiros que incendeiam a floresta para implantação da pecuária.
Devido à falta de conhecimento (ou má-fé) em relação à geografia e ao clima da Amazônia, fazem-se declarações estapafúrdias. Ao contrário do que muita gente pensa, de um modo geral o solo da região amazônica é pobre, pois as chuvas torrenciais e abundantes carregam grande parte da matéria orgânica dos solos. A espessura da capa vegetal é fina e as áreas férteis são poucas. Em resumo: plantar cana-de-açúcar em larga escala na Amazônia é "suicídio econômico".
No que se refere à mão-de-obra barata ou escrava, é necessário que enfrentemos a situação de forma realista e sem hipocrisia. De um lado temos usinas socialmente corretas que têm empregados com carteira assinada, boas instalações, fornecimento de EPIs, boa alimentação, instrução e recreação. Do outro existe um pequeno grupo de empresários (?) que teimam em trabalhar com a mentalidade do século XVIII. Em visita a um desses "engenhos", tive a oportunidade de entrar no que chamavam de "dormitório" e fiquei abismado; era um galpão com 40 metros de comprimento, tendo no seu interior "três andares" de beliches em cada lado, escuro e com pouca ventilação; mais parecia Birkenau! A ação do Ministério Público e da Justiça tem sido fundamental para evitar esses abusos.
Diz um ditado que "uma ovelha má põe um rebanho a perder". Aí está o perigo, pois o Brasil poderá ser prejudicado se o mercado consumidor do Primeiro Mundo não comprar o nosso etanol, impondo barreiras não-tarifárias por causa desses "empresários". Assim, é necessário que se crie, em caráter de urgência, um selo de qualidade social para o etanol a ser comercializado pelo setor. Será uma grande ferramenta no combate àqueles que se recusam a viver na boa governança do século XXI.
O etanol brasileiro, apesar de não ser a panacéia para todos os problemas energéticos, é um programa bem-sucedido. No entanto, os produtores têm que ficar atentos para o fato de que, em determinado momento, o mercado interno irá saturar e só haverá uma saída: a exportação. A exemplo da competente Cia. Vale do Rio Doce, que controla todo o ciclo do minério, o setor sucroalcooleiro privado - se quiser sobreviver - terá que ter o domínio completo da cadeia do etanol: produção, transporte (alcooldutos e ferrovias), portos e navios. Sem isso, o setor está fadado ao fracasso total (não esqueçamos o Proálcool), pois, se depender das ações governamentais, o etanol ficará empacado, tendo em vista a situação de quase apagão total da nossa infra-estrutura.
Soma-se a isso as pesquisas com carros elétricos (com baterias menores e mais eficientes) e a célula combustível e os lobbies dos agricultores americanos e das petrolíferas. Não podemos ficar deitados em "berço esplêndido" achando que, como diz o dito popular, "somos os donos do pedaço".
O sucesso do etanol brasileiro é fruto do acúmulo de conhecimento, do empreendedorismo da nossa iniciativa privada e do esforço dos nossos pesquisadores que, mesmo não tendo o desejável, fazem um trabalho primoroso: novas espécies de cana, hidrólise, tecnologia das usinas e aprimoramento do carro flex. Dessa forma, não podemos permitir, como querem alguns, que se estatize o setor e se crie uma outra agência reguladora (já temos a ANP), que só servirá para empregar os contumazes apadrinhados políticos e emperrar a trajetória de sucesso dos nossos biocombustíveis. Chega de estatais. Por acaso existe alguma "Sojabrás" ou "Minériobras"? (Humberto Viana Guimarães - Engenheiro civil e consultor.