Sudoeste baiano entra na rota dos biocombustíveis

11/09/2007

Sudoeste baiano entra na rota dos biocombustíveis

 


De maior bacia leiteira do Norte e Nordeste e pólo calçadista, a microrregião agropastoril de Itapetinga, a 590 km de Salvador, experimenta novos rumos com o anunciado investimento de capital estrangeiro da ordem de US$ 140 milhões para construção de um complexo produtivo de açúcar e álcool combustível.

O interesse é crescente. Em apenas duas visitas de representantes de um grupo investidor franco-japonês este ano, mais de 15 mil hectares de terra agricultáveis foram apresentados pelos pecuaristas regionais.

“Existem áreas com restrições de relevo e topografia, mas não são entraves porque podem ser eliminadas do processo”, diz o secretário de Agricultura de Itapetinga, Alexandre Magno Os japoneses chegaram de surpresa, ávidos pelas terras, em sociedade com os franceses – cujo know-how em produção de açúcar supera 120 anos de experiência no País. Do total anunciado, US$ 60 milhões devem ser aplicados na implantação da usina de açúcar e os US$ 80 milhões restantes na de álcool. A meta é a geração de aproximadamente quatro mil empregos diretos no auge da colheita, com a previsão de produção de dois milhões de toneladas de cana por ano em uma área inicial com cerca de 40 mil hectares.

A intenção não tem data para ser concretizada, mas uma coisa é certa: o elevado preço das terras não tem sido obstáculo até então: num dos solos mais férteis e caros do País, um alqueire de terra (área equivalente a 20 hectares ou 20 campos de futebol) pode chegar até a R$ 120 mil.

SALTO – O salto econômico na região apresenta números expressivos na oferta de emprego e renda, mas encontra resistência dos pecuaristas tradicionais, que relutam em negociar as suas terras temendo a erradicação da pecuária de corte e leite em, no máximo, dez anos após a instalação das usinas.

A partir de Itapetinga, e por um raio de 30 quilômetros, existem mais de 200 mil hectares de pastagens para o rebanho leiteiro estimado em um milhão de cabeças. Desse total, pelo menos 40 mil hectares serão erradicadas para o plantio e cultivo da cana.

O secretário de Agricultura de Itapetinga, Alexandre Magno, discorda da tese de que as pastagens serão erradicadas completamente como aconteceu em alguns municípios paulistas e sustenta que os 80% restantes da área de 200 mil hectares continuam para a atividade pecuária.

O sinal verde para a instalação do complexo só deverá ser feito quando a Bahia estiver inserida no Programa Nacional de Produção de Etanol (PNPE). “A Bahia ainda não foi mapeada como área produtora, mas gestões estão sendo feitas. Vale lembrar que a questão é complexa e envolve, além da instalação das usinas, toda infra-estrutura ao redor, como portos e estradas para escoamento da produção”, disse Magno.

CRÍTICAS – Posicionamento contrário tem os sindicatos rurais da região que, em recente levantamento, estimam em 10% o volume erradicado de pastagens de capim elefante plantadas nas zonas rurais de 15 municípios na região sudoeste do Estado para plantio de cana-de-açúcar. O produto tem sido utilizado na produção de álcool, aguardente e, em épocas de estiagem, como suplemento na alimentação do gado.

Por conta disso, ainda conforme levantamento, a pecuária de corte e leite, principal atividade econômica em Itapetinga e outros 11 municípios da região, corre risco de passar para segundo plano.

Na região sudoeste 24 variedades industriais de cana-de-açúcar são cultivadas e parte delas está num campo da EBDA nas estações experimentais de Barra do Choça e Itambé. As plantações fazem parte dos trabalhos técnicos da estatal em parceria com a Embrapa Gado de Leite e a Petrobras, para produção de forragem.

Segundo professores e pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) consultados por A TARDE e que cujos nomes são preservados a pedido dos mesmos, para alcançar uma produção de dois milhões de toneladas por mês, as usinas do grupo devem ocupar uma área de 28 mil hectares. “Só que essas usinas vão atrair outras e toda área de pastagem pode desaparecer, o que causará um impacto ambiental sem proporções. E se o projeto não der certo, como isso será revertido?”, indaga um pesquisador da Uesb com 10 anos de estudo na área.

Temendo ser mal-interpretado pelos que, segundo ele, “defendem o progresso a todo custo”, o pesquisador sustenta que as terras de Itapetinga, apesar do elevado índice de fertilidade, não estão em uma região propicia ao plantio de canade-açúcar. “A região Extremo Sul é muito mais favorável”.

O pesquisador da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), Gilson Caruso, com 30 anos de estudo voltados exclusivamente para a cana-de-açúcar, afirma ser viável a produção de álcool no sudoeste. “Empresários de toda a região nos procuram em busca de dados de pesquisas para subsidiar a formação de parcerias nesta área”, disse Caroso. Nos últimos meses a movimentação de investidores internacionais em busca de áreas para implantação de usinas impressiona.