Apetite da China e aposta no etanol contribuem para puxar o reajuste
Apesar de o clima surgir como importante causa da inflação de alimentos dos últimos meses, os pontos-chaves da aceleração dos preços ainda são o apetite mundial por comida e os investimentos para estimular o uso do etanol como combustível. O bom momento da economia global, com expansão média de 5% nos últimos anos, levou as populações a comer melhor mais proteínas, como carne,leite e ovos.
É um fenômeno internacional, sobretudo na China, na Índia e nos países menos desenvolvidos e com sérios problemas sociais, especialmente os da África, avaliam os especialistas.
Um caso típico é o do leite, cuja oferta cresce 2% ao ano, mas a demanda aumenta o dobro. Segundo Rodrigo Alvim, presidente da, Comissão de Pecuária de Leite da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a demanda aquecida vai durar muitos anos e a oferta está limitada.
A Nova Zelândia é a maior exportadora mundial, com 28% do mercado, mas tem condição de elevar em apenas 1 % a produção. A Europa, que exporta 35% do que produz, está praticamente impedida de elevar suas vendas externas por questões ambientais.
Produtor brasileiro lucra, mas consumidor paga
O avanço das importações chinesas é uma das razões dessa restrição em relação ao leite, que fez com que o preço internacional dobrasse em um ano. A cotaçã,o da tonelada do leite em pó, que ficava na casa de US$ 2 mil, está sendo comerciaIizadaa US$ 5,4 mil.
O México e a Venezuela, por exemplo, estão atrás do produto no mercado internacionalcional e têm dificuldades em encontrá-lo - diz Alvim.
Essa movimentação é boa para os produtores brasileiros, que vivem o melhor momento dos últimos anos. Mas quem pagará a conta são os consumidores. Recentemente, a Nestlé anunciou que, para compensar a alta das commodities, teria de promover um aumento nos preços de seus produtos de, em média, 2,2%.
Já na China, lembra o economista-chefe para América Latina do WestLB, Ricardo Amorim, o principal impacto ocorre em carne suína e derivados, bastante consumidos pela população do país. No México, o problema é sobre
tudo com o milho e, no Brasil, também há reflexos na carne.
Está havendo um choque nos preços agrícolas e todo o mundo sente. Com mais gente comendo, e a oferta sofrendo percalços, não dava para ser diferente, afirmou Amorim.
Desvio para cultivo de milho afeta outros produtos
Um fator adicional ao cenário é a demanda mundial por biocombustível. O sucesso do etanol já mexeu nos preços agrícolas. A fonte de reajustes. são os Estados Unidos, que utilizam o milho como, matéria-prima e onde a demanda pelo grão cresceu 19% este ano. Fernando Homem de MeIo, especialista em economia agrária da USP, explica que os americanos diminuíram bastante suas exportações da commodity para atender o mercado interno.
Além disso, houve estímulo para.que os produtores de outras culturas optem por plantar milho. Ou seja, diz Meio, a oferta de mais produtos foi afetada num
efeito cascata:
O mercado de milho puxou um ajuste global grande. O mundo tomou uma decisão política de favorecer o combustível limpo, mas levou ao aumento do preço dos alimentos.