Recôncavo tem um alto consumo de defensivos

24/09/2007

Recôncavo tem um alto consumo de defensivos

Na Bahia, a cultura fumageira é a base da economia de 36 municípios, sendo o Recôncavo baiano o maior produtor, com 2.500 pequenos produtores de fumo na região.
Mas um dado preocupante é que a cultura do fumo está em terceiro lugar no consumo de defensivos agrícolas – algo em torno de 2,5 toneladas/ ano, índice considerado alto pela Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), visto que a cultura é predominantemente de base familiar. No Recôncavo, são produzidas quatro mil toneladas de fumo/ano.

Os cerca de 2.500 pequenos agricultores de fumo do Recôncavo baiano, especificamente na região de Cruz das Almas (a 146 km de Salvador), já aprenderam a manejar embalagens vazias de agrotóxicos e dar o destino correto aos vasilhames. A Lei Federal 9.974, de junho de 2000, define as responsabilidades de cada um dos envolvi*A soja e o algodão são os grandes vilões quanto ao uso dos defensivos agrícolas.

Em comum, canais de distribuição, indústria e poder público têm como responsabilidade a educação e conscientização dos produtores rurais sobre a importância da lavagem e devolução das embalagens dos produtos utilizados.

Em Cruz das Almas, existem quatro empresas de fumo. Uma delas, a Danco Comércio e Indústria de Fumo, tem como parceiros 344 pequenos produtores da região, que recebem treinamentos e cursos de reciclagem no manuseio de agrotóxicos e como realizar o descarte correto das embalagens.
“Capacitamos pequenos agricultores sobre os procedimentos a serem adotados para a destinação adequada das embalagens vazias de agrotóxicos”, explica a agrônoma Celícia Mandara Fassanario.

Devolução

Além dos treinamentos, a Danco também emite um comprovante de devolução de embalagens vazias de agrotóxicos para o produtor que o isenta da responsabilidade de transportá-las até a central. “A entrega é feita uma vez por ano pela empresa, que coleta o material dos pequenos produtores”, assegurou o agrônomo Carlos Daniel Schmidt.

Na Fazenda Capivari, no Km217 da BR-101, a Danco mantém um galpão onde guarda as embalagens vazias, que são encaminhadas pela empresa para a Central de Recebimento, em Conceição do Jacuípe.
Ano passado, foram devolvidas 10.777 embalagens.

De janeiro até hoje, a Danco vendeu para os pequenos produtores da região em torno de 400 toneladas de adubo químico. O fertilizante é aplicado na lavoura logo após o plantio e no campo. Todas as embalagens de agrotóxicos que podem ser laváveis devem passar pela tríplice lavagem.
“Deve-se ter cuidado e usar o EPI (Equipamento de Proteção Individual) ao manipular os defensivos.

Se reutilizar embalagens vazias para colocar água, suco ou café, até comida, vai sentir náuseas e tonturas e até pode levar à morte.
Pode contaminar o lençol freático e os mananciais de água na região.
A maioria das propriedades tem poços artesianos que abastecem de água para consumo”, alertou o engenheiro de segurança do trabalho Adson Melo dos Santos.

Incineração: danos ao meio ambiente

Na localidade da Fazendinha, região de Muritiba, o pequeno produtor Roberto Cerqueira de Souza cultiva fumo há 15 anos. Na área de 1,25 hectares, possui 25 mil pés da cultura. Roberto conhece os cuidados que deve ter com as embalagens vazias e os problemas causados com a reutilização dos vasilhames de agrotóxico. “A gente lava, separa e guarda até a empresa recolher as embalagens. Sempre ficam longe do alcance das crianças. Tenho consciência dos riscos e sei que não se deve reutilizar os vasilhames e os envelopes”, diz.

Mesmo bem colocada no ranking nacional no Projeto Campo Limpo, a Bahia, de acordo com a Adab, ainda tem problemas com o destino final das embalagens de agrotóxicos.

Cerca de 50% dos agricultores de assentamentos rurais ainda incineram embalagens vazias. “Espera-se garantir a saúde da população rural e urbana, reduzindo o impacto ambiental causado pelo descarte de embalagens vazias de agrotóxicos”, afirma Cássio Peixoto.

Responsabilidades

Os produtores rurais têm que devolver as embalagens já lavadas, no prazo máximo de um ano após a compra.

Por sua vez, os comerciantes precisam manter um local adequado para receber o vasilhame, e os fabricantes são responsáveis por sua destinação final. “A Danco faz a coleta das embalagens entre os pequenos produtores, já que a central mais próxima fica em Conceição do Jacuípe, a 60 km de Cruz das Almas, impossibilitando os produtores de levarem as embalagens descartadas, já que eles não têm condições de pagar o transporte”, disse o agrônomo Daniel Schmidt.

Na Fazenda Capivari, os funcionários que atuam na aplicação de defensivos agrícolas são orientados a usar o equipamento de proteção individual (EPI), que também é vendido aos pequenos produtores pelas empresas fumageiras por um preço abaixo do mercado. O EPI é composto de macacão hidrorepelente (tecido que impede a penetração de partículas líquidas), luvas, botas, avental, respirador e viseira de proteção.

A empresa Danco ainda desenvolve ações que estimulam o reflorestamento e a preservação das matas nativas em propriedades rurais envolvidas no cultivo de fumo. ( C. S. P.) 
 
 Baixo Sul da Bahia reutiliza embalagens

Os produtos fitossanitários são importantes para proteger as plantações do ataque de pragas, mas podem ser perigosos se forem usados de forma errada e as embalagens não tenham uma destinação adequada e segura, alerta Cássio Peixoto, da Adab.
Na região de Wenceslau Guimarães, baixo sul do Estado, o cultivo da banana-da-terra, além da graviola e do cupuaçu, é fonte de renda na região. Os fungicidas e inseticidas são os agrotóxicos mais usados nessas lavouras. “Não se usa defensivo no cultivo da banana-da-terra, por conta do sombreamento do cacaueiro e da própria banana. Todos os cultivos usam herbicida”, diz o pequeno produtor Agnelo Firmino da Silva.
A maioria dos produtores da região, afirma, reutiliza as embalagens dos agrotóxicos. “Muitas vezes, servem para armazenar água, suco e café que os produtores levam para a roça. Além disso, a maioria dos pequenos produtores carece de infra-estrutura nas propriedades”.
Agnelo cultiva graviola e cupuaçu e mantém um galpão onde guarda as embalagens vazias e os defensivos.
“Os sacos plásticos que protegem as frutas dos insetos são enterrados e os vasilhames eu lavo, dou um furo e armazeno no galpão”, ressaltou.

Erro

 Outro pequeno produtor de graviola, Luciano Brito de Souza Filho, de Alto do Paulo Bispo, sabe que precisa devolver as embalagens vazias, mas admite que reutiliza os sacos plásticos usados para aplicação dos herbicidas e fungicidas. “Eu lavo e uso de novo em outras frutas. As embalagens eu furo e queimo. Sei que não se pode reutilizar”, justifica.

Na região de Wenceslau Guimarães até Gandu, existem 13 assentamentos rurais. Todos cultivam graviola, cupuaçu, cacau e banana.

Segundo o diretor de Defesa Vegetal da Adab, Cássio Peixoto, a grande preocupação é com a poluição ao meio ambiente e às famílias que estão no campo. “Buscamos conscientizar sobre a importância em dar o destino adequado às embalagens vazias.