Pescadores retiram resíduos do Subaé

01/10/2007

Pescadores retiram resíduos do Subaé

 

Muitas garrafas de PET, embalagens plásticas e de vidros, tênis, sandálias e até objetos inusitados como cabeças de boneca. Sacos cheios desses produtos foram retirados ontem das águas do Rio Subaé, em Santo Amaro da Purificação, a 72 quilômetros de Salvador.

As águas que inspiraram Caetano Veloso a escrever a música “Purificar o Subaé”, conhecida na voz de Maria Bethânia, estão cada vez mais poluídas. A degradação ambiental atinge mais os pescadores que tiram seu sustento do rio. Por isso, foi deles a iniciativa de fazer o mutirão para alertar a população para a importância de cuidar da preservação desse manancial A manifestação começou logo cedo e prosseguiu durante todo o dia. Um dos mais empolgados era Carlos José Valério, 60 anos, pescador desde os 10. No final da manhã, ele já havia feito duas viagens e retornado com a pequena embarcação lotada de lixo. “E nem fui muito longe. Peguei tudo isso num pedaço pequeno de manguezal. A situação está cada vez mais grave”.

ADESÃO – A ação de ontem foi a primeira, mas, no que depender de Carlos, outras virão. Contudo, lamenta a pouca adesão dos seus companheiros de profissão. Apenas cinco embarcações, com cerca de 30 pescadores e marisqueiras, se engajaram na empreitada programada pela Associação de Marisqueiras e Pescadores da Caieira (Amapesca).

Caieira é o nome da rua onde, no seu final, já desembocando no mangue, se esconde o pequeno imóvel que abriga hoje a sede provisória da Amapesca, entidade criada há quatro ano e que reúne entre 250 e 300 pescadores e marisqueiras de Santo Amaro.

“Esse é um protesto pela poluição ambiental. Nós sobrevivemos exclusivamente do marisco e da pesca”, diz José Roque J. Filho, presidente da Amapesca. Segundo ele, a entidade recebeu, em 2005, dos governos federal e estadual, nove embarcações e apetrechos para o trabalho. Porém, hoje, apenas seis barcos estão em operação, pois os outros tiverem hélices e motores quebrados pelo lixo. “As embarcações foram para que nós pudéssemos ir mais distante buscar peixes de maior qualidade.

Mas quando voltamos temos que atravessar o lixo para atracar”, explica. Os equipamentos usados também sofrem com os objetos que poluem as águas do Subaé, que incluem até geladeiras, fogões e pneus.

LAMENTO– As pessoas que sobrevivem do que retiram do Rio Subaé lamentam a sua degradação. “Antes eu pegava 10 litros de mariscos em um dia, hoje, o máximo que consigo são cinco litros”, compara Marinalva Batista, 45 anos, marisqueira desde pequena.

“O que a gente consegue com a venda só dá para comprar comida. Tenho um neto de quatro meses que só vive doente. O pai dele é catador de carangueijo. O dinheiro que conseguimos não dá para comprar nem leite nem medicamentos”, relata a marisqueira Gildete Moreira dos Santos, 47 anos.

E, com seu jeito simples e abnegado, arremata: “A vida é difícil, mas a gente vai vivendo como dá”.