Doce de umbu da caatinga alcança o paladar do francês
A agricultora aposentada Jovina Gonçalves da Cruz faz parte de uma das 57 famílias que vivem no meio da caatinga, em Marruá, a 24 km do município de Uauá. Durante décadas, Jovina, como tantos outros moradores da região, buscava uma solução de trabalho para os períodos de longas estiagens.
“Depois de muita conversa, decidimos começar a fazer doces para nossas famílias. Aos poucos, começamos a vender para outras pessoas. Decidimos, então, que o trabalho conjunto daria certo e resolvemos criar uma cooperativa”.
Assim, 12 famílias da região encontraram uma fonte de renda garantida a partir do beneficiamento do fruto que é originalmente nordestino: o umbu.
Hoje, são 15 minifábricas de beneficiamento de umbu, maracujá, goiaba e manga, associadas da Cooperativa Agrícola e Familiar de Curaçá, Uauá e Canudos (Coopercuc) e que já fazem parte do cenário de exportadores da região norte da Bahia. E foi do município que é conhecido como a terra do bode que saiu um carregamento com 3,33 mil caixas de doce cremoso de umbu para uma rede de supermercados francesa.
Tranquila
A cooperada D. Jovina diz que a existência do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA) – ONG que trabalha levando ao povo sertanejo as mais variadas formas para se conviver, e bem, no semiaacute;rido baiano – “foi fundamental para o desenvolvimento das nossas idéias e para fazer com que a cooperativa desse certo”. Hoje, aos 60 anos, D. Jovina assegura que tem uma vida tranqüila e feliz, fazendo o que gosta junto com as outras onze pessoas da comunidade.
“Antes de ter a minifábrica, trabalhávamos na agricultura, e você sabe como é dura essa vida. Esperar chuva para plantar milho, feijão e mandioca não era fácil. Hoje, nossa vida mudou, e para melhor”, relata. A distância entre a casa dela e a minifábrica não passa de quatro metros. Montada num espaço de três cômodos, o local de trabalho das 12 famílias que resolveram apostar nas receitas é ventilado, “suficiente para comportar nossa produção”, diz D. Jovina.
O trabalho é feito em escala, onde, a cada dia, três pessoas fazem os doces que vão para a França e ainda devem chegar este ano ao mercado na Áustria. “É bom demais saber que o que nós fazemos aqui vai ser aproveitado por nossos irmãozinhos de tão longe”, afirma, com um largo sorriso no rosto.
Mercado
“O umbu foi escolhido por chefs de mais de 120 países como excelência na gastronomia mundial, gerando até 48 receitas”, informa Egnaldo Gomes Xavier, gerente da Coopercuc. Com capacidade de produzir até 330 toneladas ao ano de itens beneficiados, a Coopercuc fecha o ano com 180 toneladas, mas poderia conseguir ampliar o número se “houvesse mais consolidação de mercado e melhorias na estrutura das minifábricas”, frisa Xavier.
Pesquisas
O engenheiro agrônomo da Embrapa Francisco Pinheiro de Araújo assegura que as fruteiras nativas podem e muito ajudar os produtores locais, provando que “santo de casa faz milagre”, desde que os produtores, como D. Jovina, acreditem e comecem a plantar.
Já no sudoeste do Estado, a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical (Cruz das Almas) implantou duas Unidades de Material Básico Propagativo (UMBP) de fruteiras tropicais em seis assentamentos de Vitória da Conquista e Palmas de Monte Alto.
“A agricultura familiar terá material genético de umbuzeiros e umbu-cajazeiras de qualidade superior, o que pode gerar uma nova perspectiva para o semiaacute;rido”, explica Nelson Fonseca, pesquisador da Embrapa responsável pelo projeto nos assentamentos.