Da pastoral da terra ao Ministério da Pesca

02/10/2007

Da pastoral da terra ao Ministério da Pesca 

 

BRASÍLIA. Acostumado a ter que recitar nome e cargo repetidas vezes sempre que comparece a algum evento ou cerimônia, o chefe da Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca, ministro Altemir Gregolin, garantiu um raro momento de fama na última segunda-feira quando, em rede nacional de rádio e TV, exaltou as qualidades nutricionais e o sabor do pescado brasileiro. Voltou a chamar a atenção dois dias depois, quando os clientes de um supermercado do subúrbio de Irajá, no Rio de Janeiro, foram surpreendidos pela presença do ilustre desconhecido, que tentava convencer os passantes a comprar mais peixe, enquanto os encorajava a degustar peças de sushi.

- Ele tem consciência de que a maior parte da população ignora completamente quem ele é e não se incomoda com isso - comenta o assessor de imprensa de Gregolin, Marcos Horostecki, responsável pela campanha de divulgação. - É uma pessoa naturalmente discreta, sem amor pelos holofotes.

As duas aparições conseguiram granjear espaço no noticiário ao catarinense de 43 anos que ocupa pela primeira vez um cargo de comando no Executivo nacional, e que também pela primeira vez vê seu nome sair nos jornais desvinculado de notícias genéricas sobre reforma ministerial.

- Foi um feito e tanto - reconhece seu antecessor na pasta José Fritsch, uma espécie de padrinho político de Gregolin.

Fritsch lembrou de Gregolin ao montar sua equipe quando, em 1997, assumiu a prefeitura de Chapecó (SC). Filho de pequenos agricultores da cidade vizinha de Coronel Freitas (SC), Gregolin entrou em contato com a política estudantil e as assembléias da Pastoral da Terra quando frequentava o curso de Medicina Veterinária na Universidade Federal de Pelotas.

Na Pastoral, conheceu Fritsch, que tinha acabado de fundar um embrião do que seria a seccional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Rio Grande do Sul.

- Era um menino ligado à esquerda, com conhecimento técnico das necessidades da região e boa formação política - lembra José Fritsch. - Sempre foi discreto, mais um técnico do que um político. Isso pode causar dificuldades agora que ele ocupa uma cadeira no governo.

Ocupando cargos na prefeitura de Chapecó entre 1997 e 2004, Gregolin foi coordenador do Orçamento Participativo, chefe de gabinete, secretário de Administração e Fazenda e secretário de Governo. Deixou os quadros da prefeitura em 2005 para, mais uma vez a convite de Fritsch, assumir o segundo posto mais importante na Secretaria da Pesca. A ex-mulher, Rosana, e a filha de 14 anos, Bruna, ficaram em Chapecó. Os pais, Eugênio e Lourdes, mudaram-se para Rondônia, onde continuam envolvidos com agricultura familiar.

Alçado à posição de ministro pouco mais de um ano depois, manteve o perfil circunspecto.- Nem quando o Grêmio está jogando ele se exalta - entrega um assessor. - Acompanha os resultados dos jogos, comemora vitórias mas não é aquele torcedor "doente".

Ao menos no ambiente de trabalho, só quem desperta mesmo a veia de torcedor do ministro é seu secretário-adjunto, Dirceu Silva Lopes. Torcedor do Internacional, Dirceu costuma mandar e-mails com piadas sobre a rivalidade com o Grêmio a todos os colegas.

- Aí não tem jeito. Quando tem Gre-Nal, os dois assistem ao jogo longe um do outro e é só o Grêmio ganhar que, no dia seguinte, o Dirceu sofre, e tem que sofrer calado - ri Marcos Horosteck, ele mesmo um gremista. - Não adianta ficar nervoso porque é aí mesmo que o ministro pega no pé.