Curiosidades Gerais - Terra seca

Publicado: 10/10/2007

Curiosidades Gerais - Terra seca

Carmem Moraes

Desertificação é o processo decorrente de um clima relativamente seco e da degradação do solo, por meio de processos erosivos ou da retirada de uma determinada vegetação, que o leva a perder, definitivamente, sua capacidade de produção vegetal. A definição é do pesquisador da Embrapa Solos, Celso Manzatto. O doutor em geociências e professor da Unicamp, Archimedes Perez Filho, acrescenta que desertificação é processo causado por mãos humanas. “Solos muitos frágeis, com característica arenosa, estão sujeitos à transformação em areais, devido à ação do homem. A degradação ocorre devido ao desmatamento para pastagens e plantações, o que acaba desprotegendo a terra”, explica Perez Filho. Nesses locais, o solo é de areias quartzozas, hoje classificado de neosolos quartzarênicos, onde há menos de 15% de argila e o restante dos componentes é areia.

“É muito difícil realizar a fruticultura nessas condições”, afirma. Do ponto de vista físico, o solo possui pouca água; e do ponto de vista químico, é muito pobre em cálcio, magnésio e potássio - elementos químicos que sustentam as plantas. Com a retirada da vegetação original para produção de frutas, se não for realizado um manejo correto, pode ocorrer desertificação ou, conforme nomenclatura de Perez Filho, a formação de desertos antrópicos. Por meio da ocorrência de chuvas, as propriedades do solo são lavadas, deixando-o mais pobre ainda. Além disso, no espaçamento entre uma planta e outra, abrem-se sulcos que, com o decorrer do tempo, ficam maiores, tornando-se voçorocas (grandes buracos). De acordo com o pesquisador em mudanças climáticas globais da Embrapa Informática Agropecuária, Giampaolo Queiroz Pellegrino, “o clima nesses locais degradados já era seco, porém, a retirada da vegetação faz com que, na ocorrência de chuvas, o impacto da gota provoque a desestruturação e a lixiviação do solo, degradando suas propriedades físicas e químicas. A infiltração diminui e menos água se mantém no solo. Ou seja, neste caso, o regime pluviométrico é um fator menos decisivo que a cobertura vegetal e o manejo do solo”.

A tendência é a área de solo degradado se expandir, tornando-se cada vez maior e mais improdutiva. Segundo Manzatto, os locais atualmente desertificados foram, um dia, produtivos. “Existem casos, no Piauí, em que o processo é decorrente da mineração. Há terras em processo de desertificação, no Rio Grande do Norte, devido ao uso agrícola”, exemplifica. Já, para o professor da Unicamp, em solos mais argilosos, a retenção de água é maior e uma desertificação só poderia ocorrer em caso de seca muito grande. Ainda são estudadas as relações entre as mudanças climáticas e a desertificação, por isso, de acordo com Perez Filho, não se pode dizer que o aumento do calor tenha relação com o fenômeno. Pellegrino informa que a Embrapa iniciou um estudo em regiões do semi-árido, para analisar se houve aumento de temperatura em virtude do aquecimento global. “Resultados iniciais indicam o aumento e agora estudaremos se as áreas desertificadas estão se ampliando também”, explica.

De acordo com Manzatto, há no Brasil muitas áreas desertificadas e salinizadas. “Salinização é um processo que ocorre devido ao acúmulo progressivo do sais que impedem o desenvolvimento normal das plantas”, explica. “Além disso, existe uma área no Sul, onde há um processo chamado arenização. Neste caso, o local também parece um deserto”, acrescenta. Geralmente, a cobertura vegetal das áreas suscetíveis à desertificação é o cerrado, no Centro-Oeste e Sudeste. No Nordeste, estas regiões são revestidas pela caatinga característica do semi-árido e no Sul, principalmente no Rio Grande do Sul, são cobertas pelos campos, onde predominam gramíneas.

“O comportamento do microclima nessas áreas é semelhante ao de um deserto”, compara Pellegrino. Ele destaca que em terras, como no semi-árido, onde houve a desertificação, o microclima fica muito mais seco e a tendência é a temperatura aumentar. “Isso ocorre porque o aumento da temperatura é inversamente proporcional à quantidade de água, ou seja, quanto menor a umidade atmosférica, maior a variação de temperatura”, explica. O fenômeno, segundo o pesquisador, tem uma explicação física que, simplificada, diz que “quando há infiltração de água no solo, parte da energia do sistema é usada para a evaporação da água e para a transpiração das plantas, no entanto, em áreas desmatadas, onde a água não permanece no sistema, essa energia é usada no aumento de temperatura”.

A Embrapa, de acordo com Pellegrino, está elaborando um projeto, onde um sistema de monitoramento por satélite mapeará as áreas desertificadas e o avanço do processo. As informações poderão colaborar para tomada de decisões em programas de combate à desertificação, como o promovido pelo Ministério do Meio Ambiente.

Tecnologia e recuperação

A produção de citros na região de São Carlos, SP, onde o solo possui características arenosas, foi possível graças ao uso de recursos tecnológicos. O professor Perez Filho explica que “para que o plantio exista, há a demanda de um relevo plano, com declividade menor do que 3%, recursos financeiros e tecnologia”. Além disso, é necessário o manejo da terra, com plantação de gramíneas, evitando erosão entre plantas e prevenindo problemas físicos. O manejo químico da terra, segundo ele, também é preciso e se faz com fertilizantes e produtos para a planta se desenvolver bem. “Inclusive, em muitos casos, é necessário corrigir a saturação de alumínio, que pode ser elevado a até 50%, prejudicando o pomar.”

Para Pellegrino, é possível a recuperação por meio de aumento da matéria orgânica e da fertilidade do solo, técnica para manutenção da água no sistema e diminuição de sua erosividade, principalmente, com aumento da cobertura vegetal. Esse conjunto de ações permite o armazenamento de água no solo e a permanência do líquido para o aproveitamento do pomar. “O homem deve fazer o manejo correto do solo para aumentar a fertilidade e ter o mínimo de condições para manter a recuperação da vegetação”, orienta.

“É preciso planejamento, uma estratégia de desenvolvimento para atacar essa situação”, propõe o pesquisador da Embrapa Solos, Manzatto. Um exemplo bem-sucedido de região que contornou os problemas causados pela seca e pelo solo de má qualidade, raso e pedregoso, é o Vale do São Francisco, grande pólo fruticultor do Nordeste brasileiro. “Eles solucionaram o problema, irrigando. É preciso pensar no projeto de irrigação, e o mais indicado é por gotejamento, já que por aspersão se perde muita água devido à evaporação”, informa Perez Filho. Essa forma de irrigar também é indicada, por ele, para solos arenosos.

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Matéria retirada da Revista Frutas e Derivados
Site:
http://www.ibraf.org.br/revista/revista.asp

Data Edição: 05/10/07  
Fonte: Revista Frutas e Derivados