Indústria dá incentivo para fidelizar produtor de leite

17/10/2007

Indústria dá incentivo para fidelizar produtor de leite


 

Escaldadas pela última entressafra, que levou o preço do leite às alturas e, em alguns casos, à ameaça de desabastecimento, grandes indústrias estão estruturando e fortalecendo programas de fidelização dos produtores de leite.

A iniciativa mais recente é a da Danone, que lançou o programa Poupança do Leite. Recentemente, a Laep, controladora da Parmalat, abriu a Integralat, empresa que pretende criar sua base de produtores. Nestlé e Eleva, controladora da Elegê, têm programas semelhantes.

Maior compradora de leite do país para produtos lácteos frescos, como iogurtes, a Danone dará, com o Poupança do Leite, R$ 0,01 por litro com alto teor de proteína, baixa contagem de bactérias e sem antibióticos. "A meta é estimular a relação de longo prazo com o produtor para garantir o abastecimento com qualidade', diz Debora Oliveira, diretora de compras da Danone. 'É a matéria-prima que sustenta o grupo."

Para a Danone, o Poupança do Leite servirá como um 13º salário aos produtores (o incentivo equivale a R$ 1 a cada 100 litros). Segundo Oliveira, em um mês, 200 fazendeiros aderiram ao programa. A empresa tem 350 fornecedores e espera que todos entrem no Poupança do Leite.

Além da ajuda financeira, o programa abrange orientações técnicas, visitas de veterinários, zootecnistas e noções de gestão das propriedades. Eles também passam a integrar a central de compras da empresa -a Danone adquire os insumos e os repassa a preço de custo.

Os programas de fidelização de outros fabricantes seguem a mesma estratégia, apesar de pequenas diferenças. No Clube do Produtor Elegê, a carteirinha de associado dá direito a descontos. Na Nestlé, o programa Boas Práticas na Fazenda conta com 200 associados.

Outro projeto, o Andradina, fez com que a média da produção e a receita de 27 famílias de pequenos produtores de Andradina (SP) subisse 30% nos últimos 18 meses, em média. A produção diária de leite do rebanho do grupo cresceu 54%.

"As empresas tomaram um susto quando investiram na ampliação das fábricas, mas esbarraram na falta de leite muito maior do que as entressafras anteriores", afirma Marcelo Carvalho, diretor-executivo da Agripoint Consultoria. "Elas perceberam é impossível executar um planejamento de longo prazo sem ter essa parceria com os produtores."

Segundo ele, a entressafra de 2007 foi acentuada devido ao aumento do consumo mundial.

O projeto mais ambicioso dessa indústria é o da Laep. A Integralat planeja investir R$ 70 milhões no programa que pretende, entre outras coisas, criar rebanhos melhorados geneticamente. Para apoiar os investimentos, Laep e Eleva estão abrindo o capital.

"A indústria está tentando provocar a mesma profissionalização dos produtores que Sadia e Perdigão fizeram com os avicultores", diz Jorge Rubez, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite.

Para ele, a iniciativa é boa para 90% dos produtores brasileiros que têm baixa produtividade. Os grandes, no entanto, não deverão se comprometer com a fidelização, que os mantêm presos a um só fabricante. "Na avicultura, em 50 dias essa parceria dá resultado", diz Rubez.
"Na pecuária leiteira, leva três anos. É complicado se comprometer por período tão longo."