Produtores esperam o perdão das dívidas
A vassoura-de-bruxa chegou, e a Ceplac recomendou que os fazendeiros podassem e adubassem os cacauais. O governo abriu o programa, os bancos abriram os cofres.
Quem pegou dinheiro, pagou para apanhar. Literalmente, adubou o inimigo. O fungo saiu dos cacaueiros infectados com mais força.
Nova estratégia, do tipo ‘agora vai’. De plantas resistentes em algumas fazendas tiraram-se clones para alastrar em pelo menos 100 mil dos 600 mil hectares de cacau da região. O aceno era tentador.
A produtividade, dizia-se, subiria para mais de 100 arrobas (uma tonelada e meia) por hectare, um assombro para quem estava acostumado a 15 arrobas no mesmo espaço.
Nova corrida aos bancos, mais dinheiro, novo fiasco.
Clone de planta resistente numa fazenda noutras mostrou-se vulnerável. Como agravante, no processo de clonagem os produtores foram orientados a cortar as árvores velhas, que, mesmo infectadas, ainda rendiam alguma coisa.
Resultado: nem clone e nem cacaueiro antigo. E a alta produtividade era blefe. Ou chute. E agora, quem paga a conta? Aí está o xis da questão. Como bancar novas alternativas se todos estão endividados e os bancos trancaram os cofres? O ROMBO– Só de parte dos 32 mil produtores que existiam nos bons tempos, são R$ 800 milhões em dívidas, aí incluídas aquelas contraídas antes da vassoura, mas principalmente das etapas das estratégias fracassadas. Estudo da Universidade de Campinas (Unicamp) revela que, contando empresas, comerciantes, cooperativas e toda a cadeia que gravitava em torno do cacau, falidos no rastro da doença, o rombo chega a US$ 10 bilhões.
Falar em perdão da dívida sempre soou como heresia. O governo alega que uma opção dessas seria desastrosa, já que devedores de outras culturas que têm problemas no País, também por questões climáticas, como o sisal e o feijão, iriam querer o mesmo tratamento, o que, em efeito cascata, acabaria num buraco financeiro sem precedentes.
Mas os cacauicultores, cuja maioria perdeu a fé em soluções sempre prometidas e nunca cumpridas, já não pensam assim.
Animado com liminares que produtores conseguiram isoladamente na Justiça, o presidente do Sindicato Rural de Ilhéus, Isidoro Lavigne Gesteira, arregimentou 800 deles para pedir, na Justiça Federal, a anistia das dívidas contraídas quando foram estimulados a tomar dinheiro para financiar práticas sobre as quais não havia segurança científica. Ele diz que os produtores foram induzidos a erro e cita que a Ceplac já admitiu o fato.
Quer o perdão das dívidas contraídas e mais indenização pelo que deixaram de produzir.
vassoura-de-bruxa chegou, e a Ceplac recomendou que os fazendeiros podassem e adubassem os cacauais. O governo abriu o programa, os bancos abriram os cofres.
Quem pegou dinheiro, pagou para apanhar. Literalmente, adubou o inimigo. O fungo saiu dos cacaueiros infectados com mais força.
Nova estratégia, do tipo ‘agora vai’. De plantas resistentes em algumas fazendas tiraram-se clones para alastrar em pelo menos 100 mil dos 600 mil hectares de cacau da região. O aceno era tentador.
A produtividade, dizia-se, subiria para mais de 100 arrobas (uma tonelada e meia) por hectare, um assombro para quem estava acostumado a 15 arrobas no mesmo espaço.
Nova corrida aos bancos, mais dinheiro, novo fiasco.
Clone de planta resistente numa fazenda noutras mostrou-se vulnerável. Como agravante, no processo de clonagem os produtores foram orientados a cortar as árvores velhas, que, mesmo infectadas, ainda rendiam alguma coisa.
Resultado: nem clone e nem cacaueiro antigo. E a alta produtividade era blefe. Ou chute. E agora, quem paga a conta? Aí está o xis da questão. Como bancar novas alternativas se todos estão endividados e os bancos trancaram os cofres? O ROMBO– Só de parte dos 32 mil produtores que existiam nos bons tempos, são R$ 800 milhões em dívidas, aí incluídas aquelas contraídas antes da vassoura, mas principalmente das etapas das estratégias fracassadas. Estudo da Universidade de Campinas (Unicamp) revela que, contando empresas, comerciantes, cooperativas e toda a cadeia que gravitava em torno do cacau, falidos no rastro da doença, o rombo chega a US$ 10 bilhões.
Falar em perdão da dívida sempre soou como heresia. O governo alega que uma opção dessas seria desastrosa, já que devedores de outras culturas que têm problemas no País, também por questões climáticas, como o sisal e o feijão, iriam querer o mesmo tratamento, o que, em efeito cascata, acabaria num buraco financeiro sem precedentes.
Mas os cacauicultores, cuja maioria perdeu a fé em soluções sempre prometidas e nunca cumpridas, já não pensam assim.
Governo Lula diz que busca solução
governo vai admitir publicamente que houve erro na orientação inicial do combate à vassoura-de-bruxa, ponderar que os produtores que tinham débitos com bancos anteriores à doença não pagaram porque não tiveram com quê, congelar as dívidas, avaliadas em R$ 800 milhões e botar dinheiro novo para bancar novos investimentos.
Quem garante é o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, que na semana passada voltou a conversar com o presidente Lula sobre o assunto e ouviu mais uma vez que a disposição do governo é encontrar uma solução para a questão da região cacaueira.
“No dia 30, o presidente Lula virá a Salvador e provavelmente já anunciará alguma coisa sobre isso”, disse Geddel “Defendemos que o montante da dívida em si seja revisto. A redução é uma questão de justiça. O dinheiro foi passado para os produtores com juros a preços de mercado, como se a região estivesse numa situação de absoluta normalidade. E não estava”, afirma o secretário da Agricultura da Bahia, Geraldo Simões, assegurando que o aporte de dinheiro novo é o que vai garantir as expectativas de redenção regional.
A idéia que está sendo discutida pelo governo federal prevê a alocação de recursos da ordem de R$ 2,2 bilhões, incluindo a parte da dívida, o que significará recursos anuais da ordem de R$ 300 milhões.
“Em todo o período de Fernando Henrique, os recursos destinados para tentar resolver os problemas do cacau foram de R$ 400 milhões”, lembra Geraldo, que também é deputado federal da região.
Expectativas
O PAC prevê não apenas a solução dos problemas do cacau, mas da região como um todo. Os recursos são para a implantação de novas alternativas agrícolas, como a seringueira, de olho na indústria pneumática, a fruticultura e empresas que agreguem valor ao próprio cacau, como pequenas fábricas de chocolate”, fala Geraldo, lembrando que apesar da vasta tradição da região na produção de cacau a Bahia só tem duas únicas indústrias de beneficiamento do produto, ambas em Salvador.
“O governador Jaques Wagner qualificou o problema da região como ‘catástrofe’. Geddel nos levou para uma conversa direta com o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que admite o erro do governo e vê o cacau como um bom negócio, apesar dos pesares. Sou otimista. Acho que estamos próximos de uma solução”, fala o presidente do Sindicato Rural de Ilhéus, Isidóro Gesteira, que integrou um grupo de cacauicultores, líderes da Ceplac e políticos que foi a Brasília se informar sobre o que se passa e levar os pleitos da comunidade sobre a questão.
Aliás, a crise do cacau levou a reboque a antiga representação da classe. Os novos líderes, Isidoro entre eles, estão emergindo no cenário a partir de uma lista na internet coordenada pelo Célio Kersu, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), pesquisador na área de fruticultura, mas que não é produtor. “Com a lista já reunimos mais de 600 produtores de todos os cantos