Chuva abaixo da média histórica
A estiagem que atinge a região semiárida, o oeste e o sudoeste do Estado deve perdurar até o mês de novembro. O atraso do início do período chuvoso, que começa em outubro nessas regiões, é considerado preocupante, principalmente na região norte, que registra os menores índices pluviométricos do Estado e onde as chuvas vêm ocorrendo abaixo da média histórica, desde 2002. A análise é do meteorologista Heráclio Alves, do Centro Estadual de Meteorologia (Cemba) da Superintendência de Recursos Hídricos (SRH).
De acordo com os dados da SRH e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a serem divulgados ainda esta semana, a tendência é de que a chuva prevista para o trimestre (novembro, dezembro e janeiro) fique abaixo da média histórica, inclusive na região sul. Segundo Heráclio, é remota a probabilidade de chuva significativa nessas regiões até o fim deste mês.
Custo da água
Em Juazeiro, a 500 km de Salvador, nem mesmo o Rio São Francisco impede que diversas localidades fiquem sem água, um produto que chega a custar até R$ 100 por cerca de 10 mil litros. Produtores, a exemplo de Almir Nunes Pereira, da comunidade de Cipó, região do Salitre, percorrerem longas distâncias para obter água. “Se não for assim, não tem água para a família e nem para os animais”, afirma ele.
O Cemba informa que o volume de chuvas em Juazeiro, de janeiro a outubro deste ano, foi de 231,8 milímetros, enquanto as médias históricas foram de 544,4 mm, em Juazeiro, nos últimos 10 anos, e de 649,1 mm, em toda a região norte.
“Até o momento, a região está com um déficit de 57,4%, o que é muito grande em relação à média, ou seja, um déficit de 312,6 milímetros de chuva. Para uma região que chove pouco e evapora muito, choveu menos da metade e chuvas mal distribuídas ao longo do ano, agravando mais a situação das comunidades pobres”, afirma o meteorologista Heráclio Alves.
Segundo ele, o norte do Estado vem sofrendo com a redução de chuvas ao longo dos anos e, além disso, o que existe de água é perdido com a evaporação. O meteorologista diz que o agravante está na seqüência do déficit que registra a maior seca dos últimos anos agora em 2007.
“Isto se deve ao fenômeno El Ninõ (aquecimento das águas no Oceano Pacífico), que influencia diretamente o período chuvoso na região semiaacute;rida de todo o nordeste.
Evaporação causa perdas muito grandes de água armazenada em lagoas, açudes, córregos”, esclarece o meteorologista.
Irrigação
A seca não interfere na produção das principais culturas agrícolas cultivadas na região, a manga e a uva, por conta dos programas de irrigação. Situação que, no entanto, somente é garantida aos grandes produtores que captam água do Rio São Francisco por meio de canais de irrigação.
Os abalos nos negócios ocorrem por outros fatores, como dívidas com os bancos ou câmbio. A região do Vale do São Francisco tem hoje 22 mil hectares plantados com produção de 320 mil toneladas de manga, com exportação de mais de 114 mil toneladas, no ano passado, que resultou em US$ 85 milhões.
Governo
De acordo com informações da Superintendência de Recursos Hídricos, o governo do Estado tem desenvolvido trabalho para melhorar o acesso à água às comunidades mais carentes do semiárido baiano disponibilizando recursos para obras de infra-estrutura hídrica, estudos e projetos.
Dentre as obras previstas está a construção das barragens Barroca do Faleiro, no município de Senhor do Bonfim, Volta da Dona, no Rio Salitre e no Rio do Antônio, em investimento em torno de R$ 37 milhões para beneficiar 78.500 habitantes dos municípios de Senhor do Bonfim, Jaguarari, Marcionílio Souza, Boa Vista do Tupim, Nova Redenção, Andaraí, Itaetê e Iramaia.
A construção dessas barragens faz parte do Proágua Nacional, Proágua SemiAacute;rido e do Projeto de Gerenciamento de Recursos Hídricos, com recursos a serem repassados pelo governo federal, dentro do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Banco Mundial
Estiagem atinge 70% da zona rural
Os efeitos da seca atingem 120 mil pessoas na zona rural de Vitória da Conquista, a 509 km de Salvador, ou 40% da população do município – estimada em mais de 300 mil habitantes. As aguadas secaram, não há pastagens e é raro encontrar ração para o gado em 70% das 284 localidades do interior do município.
O coordenador municipal de Agricultura Familiar da Prefeitura de Conquista, Noeci Salgado, não estranha a situação e explica o porquê. “Esse é um ciclo já esperado e que todo ano se repete, principalmente aqui na região do semiaacute;rido.
Geralmente a seca ataca logo depois da colheita, por isso poucas lavouras são atingidas”.
Exceto as plantações de feijão-guandu (andu) e fava, as culturas de subsistência escapam da estiagem em muitas localidades no entorno da região.
“Claro que a seca também prejudica a floração dos cafezais, mas são as pastagens as mais afetadas, principalmente nos distritos de José Gonçalves, Pradoso, Cerdadinho e Bate-Pé”.
Ele informa que ainda não se cogitou a decretação de situação de emergência na zona rural atingida, mas antecipou que nos próximos dias uma comissão municipal estará em Brasília para discutir a situação e buscar recursos nos ministérios.
Falta ração para o rebanho, e a comida começa a ficar escassa também nos municípios de Mirante, Bom Jesus da Serra e Caetanos. Nesta região, o estudante Itamar Cardoso de Oliveira, 27 anos, deixou a escola para ajudar a família a salvar o que restou da roça de feijão e milho. De cócoras, nas margens de uma aguada, a 27 km de Mirante, o rapaz se apressa em suprir os baldes.
Para tentar amenizar o sofrimento do sertanejo, prefeituras ressuscitam a frota de carros-pipa e cadastram até carroças de tração animal para captar água e socorrer comunidades distantes da sede, como Pé-do-Morro, zona rural de Bom Jesus da Serra.
Mas nem todos têm a sorte de estar na rota da água. É o que vem acontecendo no interior de Caetanos, onde um balde com 20 litros de água custa R$ 5.
Clima favorece contaminação de rio
A falta de chuva no Estado agrava também a situação do Rio São Francisco, que está contaminado por cianobactérias, conhecidas como algas-azuis. A contaminação ocorre desde o trecho mineiro, onde o órgão ambiental local já interditou a pesca. Na Bahia, o Centro de Recursos Ambientais (CRA) está monitorando o trecho do rio entre os municípios de Carinhanha e Xique-Xique, numa extensão de 500 km.
Com menos água correndo e com o mesmo volume de esgotos sendo lançado, aumenta a concentração de substâncias como o fósforo e o nitrogênio. “E isso é tudo o que as cianobactérias precisam para se proliferar”, avaliou a bióloga Sandra Azevedo, professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Segundo a bióloga, especialista em cianobactérias e que responde pelas análises de amostras de peixes recolhidos no trecho mineiro, toda a atenção deve ser dada à qualidade da água captada no rio para o consumo humano. “É preciso evitar que a água do abastecimento tenha toxinas, porque são muito potentes e prejudiciais à saúde”, observou ela. Dentre as e