Recôncavo leva orgânicos à mesa
A Associação dos Produtores Orgânicos do Recôncavo Baiano (Aporba) desenvolve um programa para estimular a produção de alimentos orgânicos na região. O objetivo é apoiar iniciativas de produção de espécies selecionadas e expandir a produção, que ainda é tímida. Porém, o cultivo de produtos orgânicos já se espalha pelo Recôncavo, onde cerca de 20 pequenos produtores dos municípios de Santo Antônio de Jesus e Conceição do Almeida já difundem a prática há cinco anos, inclusive com a comercialização nas feiras livres pequenos mercados.
A tendência para os próximos anos, segundo o presidente da Aporba, Pedro Coni, é crescer mais ainda, em nível estadual.
produção de orgânicos na região pode ser considerada incipiente, embora em fase de expansão.
Entre os produtos mais comercializados estão as hortaliças, verduras e legumes, que além de serem os mais consumidos, prometem partir para a comercialização estadual, devido ao nível de qualidade alcançado. Mas, para isso, é necessária a definição da certificação.
A forma mais precisa e confiante até o momento para consumidor constatar se um alimento foi produzido pelo sistema orgânico é o selo de qualidade fornecido por algumas empresas, como por exemplo, o Instituto de Biodinâmica (IBD), empresa brasileira sem fins lucrativos habilitada internacionalmente para conceder certificado para produtos orgânicos biodinâmicos, após análise do processo de produção do alimento.
"A Aporba está buscando a certificação, pois só com esta certificação poderemos comercializar para fora do Estado. Agora, a credibilidade é maior que qualquer certificação, pois tem produtor que compra orgânico fora para vender no mercado", garantiu Pedro Coni.
Saudável
O agricultor Jesuíno dos Santos mora na localidade do Benfica, zona rural de Santo Antônio de Jesus, onde cultiva orgânico desde 2003. Segundo ele, a preocupação é obter um alimento saudável. "Busco também a melhoria do solo e a saúde da minha família e dos consumidores.
Produzo banana, abacaxi, coco, laranja e grãos, como andu, mangalô e feijão de corda".
Jesuíno comercializa os produtos numa barraca da feira livre da cidade. "O freguês chega e pergunta se é da minha roça porque sabe que não uso agrotóxico.
Tenho na minha propriedade inseticida e adubos naturais, que são mais baratos e não agridem o meio ambiente", disse.
Certificado
O número de propriedades orgânicas também tem aumentado expressivamente.
O IBD certifica mais de 3.500 produtores orgânicos. Pelo menos 80% dos projetos certificados no Brasil são de agricultores familiares. As associações e cooperativas de pequenos produtores são cada vez mais comuns e exercem um papel importante na viabilização da agricultura orgânica em muitas regiões.
Segundo o IBD, existem pomares de frutas certificados em 16 Estados da Federação. Na Bahia, receberam certificação o abacaxi, açaí, acerola, banana, cajá, caju, sirigüela, graviola, laranja, limão, mamão, manga, mangaba, maracujá, melancia, melão, morango e uva.
Entre as principais exigências feitas pelo IBD estão a desintoxicação do solo (pelo menos dois anos sem uso de defensivos químicos), não-utilização de adubos químicos e agrotóxicos, atendimento às normas ambientais do Código Florestal Brasileiro, recomposição de matas ciliares, preservação das espécies nativas e dos mananciais, respeito às normas sociais, tendo como base os acordos internacionais do trabalho, o bem-estar animal e envolvimento do produtor com projetos sociais e ambientais.
O presidente da Aporba diz que não há como esse sistema recuar, já que "a produção aumenta devido à divulgação dos benefícios da agricultura orgânica".
Apesar disso, de 2002 até hoje, a tendência foi o aprimoramento, incentivando o crescimento na área da produção das frutas, hortaliças, verduras e legumes que ainda está tímido na região, justificada pela produção ainda em pequena escala e em decorrência da exigência de certificado. Em média, os produtos têm preço de 20% a 30% mais altos, justificados pela produção em pequena escala devido à exigência de certificado.
Plantações
A maioria dos produtores orgânicos do Recôncavo é formada por pequenos agricultores familiares. O Recôncavo e o baixo sul estão entre as principais áreas de plantações.
De acordo com o agrônomo Ivan de Assis Pita, "o perfil do agricultor familiar se encaixa corretamente no que pede a agricultura orgânica. No entanto, alguns avanços tecnológicos e de mercado precisam ser melhorados para sua expansão na região e no Estado". Na Bahia, as principais áreas de plantações, cujos produtores estão engajados no novo sistema agrícola, localizamse também em Rio Real, Chapada Diamantina, sul e Vale do São Francisco.
Encontro
Cerca de 200 agricultores familiares da região do Recôncavo reuniram-se em um evento para discutir alternativas para a cadeia produtiva de orgânicos, considerando a sua importância social, comercial e ambiental. O evento foi realizado pela Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, Associação de Produtores Orgânicos do Recôncavo Baiano (Aporba) e secretaria municipal de Agricultura, Indústria e Comércio de Santo Antônio de Jesus.O Brasil produziu, em 2004, 38 milhões de toneladas de frutas orgânicas, sendo a laranja a principal delas, com produção superior a 18 milhões de toneladas, basicamente para a fabricação de suco concentrado. Dentre as frutas orgânicas brasileiras exportadas, incluem-se a laranja (suco), a banana e a acerola. A demanda internacional cresce à taxa de aproximadamente 40% ao ano.
Dentre eles, encontra-se a banana orgânica: em 2000, foram importados pela União Européia 65 mil toneladas
Fertilizantes e adubos naturais mais utilizados
Na agricultura orgânica é assim: calda de fumo, extrato e óleo de nim, pó de rocha e até urina de vaca: estes são os adubos e fertilizantes naturais usados pelos pequenos agricultores familiares do Recôncavo. O extrato de nim, por exemplo, por ser biodegradável, é utilizado no cultivo orgânico de hortaliças, de mudas frutíferas, e na floricultura.
O óleo do nim é uma alternativa ao uso de inseticidas sintéticos, produzido pelo pequeno agricultor em sua propriedade e com baixo custo.
A diferença básica entre o alimento orgânico e os demais vendidos em grande escala em supermercados e feiras da capital e outros Estados é que o primeiro é produzido sem uso de agrotóxicos ou fertilizantes.
De acordo com a especificação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (Embrapa), orgânico é mais do que produto sem agrotóxico: é alimento cultivado em sistema que privilegia a agro-biodiversidade, ciclos biológicos da terra e a qualidade de vida do homem.
Controle
"Os inimigos naturais já existem nas propriedades: os sapos comem as formigas, as vespas comem as lagartas, os pássaros comem os insetos, a minhoca favorece a estrutura do solo. A urina de vaca controla as pragas, e o nim, que controla várias espécies de insetos, os agricultores têm nas propriedades", diz a pesquisadora Marilene Fancelli, da Embrapa.
O cultivo orgânico gera produtos saudáveis, de alto valor nutricional e isentos de qualquer tipo de contaminantes, levando-se em conta a preservação e ampliação da biodiversidade dos ecossistemas e a conservação das condições físicas, químicas e biológicas do solo. "Na agricultura orgânica, a diversidade do ambiente é import