Leite vendido na Bahia será examinado a partir de hoje
Todas as marcas de leite longa vida comercializadas na Bahia passarão por análises laboratoriais para avaliação da qualidade dos produtos.
A decisão foi tomada ontem pela diretoria de Vigilância Sanitária da Bahia (Divisa), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde (Sesab), que emitiu nota oficial sobre o assunto. “Essa foi uma determinação do Estado da Bahia, numa resposta aos anseios população, que está assustada e preocupada com a qualidade do leite“, explicou a diretora da Divisa, Ita de Cácia Aguiar Cunha. Ela lembra que o trabalho tem caráter preventivo.
“Não é de suspeita“, frisou.
As amostras serão coletadas em cinco municípios – Salvador, Feira de Santana, Barreiras, Vitória da Conquista e outro a ser definido – e analisadas pelo Laboratório Central de Saúde Pública Professor Gonçalo Moniz (Lacen), localizado na capital baiana. “Esses municípios foram escolhidos por serem pólos regionais e por terem condições de recolher e encaminhar adequadamente as amostras“, explicou a diretora. “Estamos com uma equipe em Barreiras que já vai providenciar as amostras de lá“.
As análises laboratoriais começarão por Salvador, onde a Vigilância Sanitária municipal colherá amostras de leite nos supermercados, mercados e outros postos de comercialização, possivelmente, a partir de hoje. “Vamos entrar em contato com o Lacen e se houver condição do laboratório receber as amostras amanhã (hoje), começaremos imediatamente o trabalho“, afirmou Augusto Bastos, coordenador da Vigilância Sanitária de Salvador. Segundo ele, o prazo máximo para término da operação é a terça-feira da próxima semana.
“Vamos ter amostras de todas as marcas, mas vamos priorizar a Parmalat, que teve lotes interditados“, informou Bastos.
De acordo com Ita de Cácia, serão recolhidas três amostras, do mesmo lote, de cada marca nos municípios. Uma delas ficará com o detentor do produto – o comerciante.
“Será feita a análise na primeira amostra. Se acusar algum problema, examina-se a segunda, com a presença de um técnico da empresa responsável pela marca.
Caso o problema se confirme, o fabricante tem o direito de pedir a análise da terceira amostra em outro laboratório, com acompanhamento de um técnico do Lacen“, descreveu Ita de Cácia.
Interditados
Além da análise do leite, a Divisa determinou a interdição cautelar no Estado dos lotes das marcas Calu, Parmalat e Centenário. O que já está sendo feito, conforme informou Bastos. Os dois representantes dos órgão de vigilância disseram não ter em mãos o número de marcas comercializadas na Bahia. No Brasil, estimase que ultrapasse 130.
Amanhã, novas ações deverão ser anunciadas peloMinistério da Agricultura. O ministro Reinold Stephanes anunciou anteontem reformulações no método de fiscalização federal e também a análise do leite consumido pelo brasileiro.
De acordo com a assessoria de imprensa do ministério, representantes ligados ao órgão, vindos de todos os estados brasileiros, estão reunidos em Brasília para discutir a implementação das novas formas de controle. A Bahia tem dois membros na comissão. A previsão inicial é que os trabalhos do grupo terminem amanhã, mas a assessoria da pasta informou que as discussões podem se estender.
Adulterações
O clima de insegurança em relação ao leite originouse das denúncias investigadas pela Operação Ouro Branco, deflagrada no dia 22 deste mês pela Polícia Federal eMinistério Público de Minas, de contaminação do alimento por cooperativas do Triângulo Mineiro, a partir da mistura de soda cáustica, água oxigenada e outros produtos. A adulteração, segundo dados da polícia, teria o objetivo de aumentar o volume e matar bactérias. Os lotes suspeitos foram interditados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitári e estão sendo recolhidos em todos os Estados brasileiros.
O leite longa vida é o mais consumido no Brasil. De acordo com estatísticas da Associação Brasileira de Leite Longa Vida (ABLV), em 2005, do total de leite fluído vendido no País, que foi de aproximadamente 6 bilhões de litros, 73,5% ou 4,4 bilhões de litros eram em embalagem longa vida. Dados do IBGE mostram que cerca de 28% do leite longa vida, envasado no segundo trimestre de 2007, foi industrializado em Minas Gerais. Na Bahia, esse índice foi de 1,7%.
Prejuízo alcança R$ 5 milhões nos supermercados baianos
A crise do leite em Minas Gerais teve impacto nas vendas de leite longa vida em ao menos 11 Estados. Na Bahia, a Abase (Associação Baiana de Supermercados) estima que os supermercados tenham sofrido perda de 33% nas vendas de leite, com prejuízo de R$ 5 milhões.
Associações supermercadistas do Acre, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Pernambuco, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins apontaram quedas de 10% a 60% nas vendas do leite UHT (de caixinha).
O consumidor, segundo as associações, está substituindo o leite UHT por leite em pó, de saquinho, sucos e refrigerantes e também optando por marcas locais de laticínios.
A ASPB (Associação de Supermercados da Paraíba) foi a que identificou maior queda nas vendas, de 60%. Os supermercados não teriam tido prejuízo porque “o consumidor está comprando outros produtos”, afirmou José Bernardino da Silva, presidente da ASPB. Em Santa Catarina, houve queda de 20%, mas as marcas locais cresceram até 10%.
No Acre, as vendas do leite Parmalat caíram em torno de 20%; no Mato Grosso 30% e no Pará, 50%. No Tocantins e no Espírito Santo, a redução na venda de leite foi de 15%. As vendas do Manacá, reprovado pelo Procon de Goiás, caíram 70%. Em Sergipe e no Maranhão, a queda foi de 10%. A associação pernambucana notou queda, mas não estimou percentual.
Consumidores
Os consumidores baianos estão bastante divididos. Enquanto uns estão preocupados com a situação e trocaram o leite longa vida pelo leite em pó, outros consomem o produto e não questionam sua qualidade.
Moisés Macedo, técnico em confeitaria e panificação, diz que passou a usar o leite em pó para fabricar alguns produtos. “Nos últimos dias, estou comprando leite em pó. E vamos manter esta troca até a situação se regularizar”, salienta. Ele ressalta que, apesar do preço mais alto, o leite em pó rende mais, o que mantém o orçamento.
A consumidora Cecília Oliveira também trocou o leite longa vida pelo leite em pó. Ela conta que tem dois netos e não quer expor as crianças a um produto no qual não confia.
“Mas a diferença de preço pesou no seu orçamento”, diz.
Nos supermercados e pequenos mercados de bairro da cidade pesquisados por A TARDE, ontem, não houve alteração no preço do leite em pó. Euzani Carvalho, proprietária de um mercado na Avenida San Martin, diz que não houve uma maior procura pelo leite em pó.
E acrescenta que o consumo do leite longa vida ainda está estabilizado. “Acho que os consumidores viram as marcas que estavam com algum problema e continuaram comprando as outras”, afirma.
Confiança
Esta não foi a posição da consumidora Noélia Almeida. Apesar de utilizar apenas a marca Parmalat, ela garante que não parou de consumir o produto. “Continuo comprando e confio na marca”, salienta Noéli