Politíca agrícola do país já considera aquecimento

08/11/2007

Politíca agrícola do país já considera aquecimento

 

Se estiverem corretas as previsões de que, nas próximas décadas, as temperaturas já ineditamente altas da Terra subirão ainda mais, a economia brasileira corre sério risco de entrar em colapso.
O sintoma mais anunciado dessa crise potencial é o que atinge a agricultura: o volume da produção de grãos, por exemplo, poderá cair pela metade no próximo século, por causa do aquecimento do clima e da redução das áreas cultiváveis de importantes produtos agrícolas do país.
Esse cenário, que demanda um posicionamento urgente do governo brasileiro em relação às questões do clima, parece, definitivamente, ser fruto de nossa ambição pelo progresso. Segundo conclusões do IPCC (Painel Internacional pelas Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), ligado à Onu (Organização das Nações Unidas), são "inequívocas" as evidências de que a ação humana é responsável pelo aquecimento global.
Segundo dados apresentados pelo IPCC os seis últimos anos foram os mais quentes da história, e a concentração atual de gases na atmosfera é a maior em 650 anos.
Sejam os motivos das mudanças humanos ou naturais, o Brasil tem constatado importantes alterações climáticas em seu território nos últimos anos. Em 2005, uma seca na Amazônia fez com que a região tivesse o menor índice pluviométrico em quase meio século.
Em um país usualmente livre de anomalias climáticas, o furacão Catarina prejudicou agricultores e desabrigou famílias no sul do país em 2004. E a maior temperatura já registrada na história do Brasil foi medida em 2005, na cidade de Bom Jesus, em Piauí, onde os termômetros marcaram 44,6o C.
Por conseqüência natural, esses impactos negativos têm interferido em elementos importantes da economia brasileira. Um exemplo de como tais mudanças influenciam a economia é o resultado apresentado pela produção de soja no ano de 2006: a safra diminuiu mais de 10% em relação ao ano anterior por causa do clima seco, e os efeitos dessa redução vão além do prejuízo direto nos cofres do país.
 “A soja é importante para várias cadeias alimentares de animais criados no Brasil. O grão serve como base para a ração de aves e suínos, além de representar, nas fazendas, uma alternativa para o combustível tradicional, servindo como matéria-prima para a fabricação de um tipo de biodiesel”, afirma a economista do CEPEA/Esalq (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz) Daniela Bacchi. Ela explica que tanto o atendimento da demanda interna quanto as exportações desse produto são prejudicadas pela queda da produtividade, o que implica em aumento de preços.
“As conseqüências diretas de uma queda na produção de soja apareceriam não apenas no consumo interno, como também na balança comercial.” A redução nos lucros do agronegócio, que é responsável por mais de 25% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil, poderá causar prejuízos de até 10% à riqueza nacional.
Tendo em vista esse panorama, pesquisadores brasileiros estão preocupados em avaliar detalhadamente quais seriam os prejuízos de uma elevação ainda maior nas temperaturas para o agronegócio brasileiro. Para analisar este cenário com precisão, o Cepagri/Unicamp (Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas) produziu uma pesquisa em que cruzou as previsões do IPCC com o zoneamento de risco climático das cinco principais culturas agrícolas do Brasil: café, arroz, feijão, milho e soja.
“Por meio do zoneamento, sabemos o quê, quando e onde podemos plantar, sem que haja prejuízos por causa do clima”, afirma o coordenador da pesquisa e diretor-associado do Cepagri, Hilton Silveira Pinto. Os pesquisadores da Unicamp e da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), parceira do projeto, avaliaram quais seriam as zonas aptas para o plantio das culturas selecionadas se houvesse um aumento de temperatura de 1,4oC, 3oC ou 5,8oC.
“É uma questão biológica. As plantas deixam de fazer fotossíntese em temperaturas superiores à 40oC. O café, por exemplo, é mais sensível ao calor, e não pode ser cultivado em áreas onde a temperatura ultrapasse 36oC. O que fazemos é avaliar em que áreas de cultivo o aquecimento global faria as temperaturas ultrapassarem os limites de cada um desses produtos, provocando queda na produção”, afirma o coordenador do estudo.
No cenário mais pessimista da pesquisa, as safras dos principais grãos cultivados no Brasil podem cair pela metade no próximo século. O café, cujo faturamento corresponde a 5% do PIB do agronegócio brasileiro, seria o produto mais prejudicado, com queda de 90% na produção.
Segundo o coordenador da pesquisa, o grão deixaria de existir para sempre em zonas tradicionais de cultivo, como o oeste do estado de São Paulo, o principal pólo econômico do país, para ser produzido somente no Paraná e no Rio Grande do Sul, regiões ao sul do território nacional, que contam com temperaturas mais amenas.
“Mesmo com o aumento de apenas 1o na temperatura, o prejuízo com a queda da produção de café chegaria a US$600 milhões. E há quem diga que esse cenário mais otimista já é irreversível, e deve acontecer em curto prazo, em 10 ou 15 anos”, diz Silveira Pinto, do Cepagri. O segundo produto mais afetado pelo aquecimento global seria a soja, cujas exportações somaram R$ 8,8 bilhões de janeiro a novembro de 2006. A redução na safra poderá variar entre  10% e 64%.
“O que concluímos é que, se as previsões do IPCC se confirmarem, elas não serão benéficas para as nossas principais culturas. Por isso, é importante que estejamos preparados”, afirma o diretor do Cepagri, Jurandir Zullo. “Por isso, a pesquisa de aquecimento global se divide em duas frentes. Uma primeira linha avalia se as mudanças climáticas realmente estão acontecendo. E a segunda linha é aquela que, caso existam as mudanças, verifica o que vai acontecer com a agricultura brasileira e com quais impactos será preciso lidar para mantê-la rentável”.
As pesquisas para fazer o zoneamento climático do Brasil se iniciaram em meados da década de 1990, e a partir de 1996, foram convertidas em políticas públicas (o zoneamento serve como pré-requisito para os programas de financiamento e seguro rural do Ministério da Agricultura). Quando as mudanças climáticas globais se tornaram mais evidentes, a partir de 1999, iniciou-se a segunda fase do projeto, que consistia em confirmar as transformações e o seu impacto na atividade agrícola.
“Estávamos analisando as alterações sob a ótica das precipitações pluviométricas, mas não conseguimos realizar grandes descobertas. Talvez porque a chuva seja um fenômeno climático aleatório e pontual. Em 2000, mudamos de foco e passamos a observar a mudança que se evidenciava cada vez mais na temperatura”, conta o também coordenador da pesquisa e diretor da Embrapa Informática, Eduardo Assad.
“As pessoas ainda não estão cientes de que essas transformações existem, e a única forma de estarmos preparados para elas é investindo em política pública, em pesquisa. Com esse projeto, conseguimos antever e propor soluções que reduzam a perda provável de 70% da área agrícola do Brasil”.

Adaptação

Os caminhos em que os cientistas da Embrapa apostam para adaptar a agricultura brasileira aos novos cenários climáticos são o melhoramento genético e a substituição de culturas. “Em primeiro plano, nós temos que descobrir como continuar plantando”, afirma Assad, que explica que o estudo da adaptabilidade pode ajudar a desenvolver espécies mais resistentes ao calor.
“E, em segundo plano, temos que investir na busca por espécies que possam aumentar a limpeza da atmosfera, como a produção de matéria-prima para a produção de bioenergia”. O Brasil, que é líder mundial no uso de biocombus