Estrangeiros querem terras do semi-árido
As perspectivas geradas pelo aumento de consumo de agrocombustível, associadas à vocação do semiaacute;rido para o cultivo de oleaginosas, como a mamona, está colocando terras da caatinga baiana na mira de investidores nacionais e estrangeiros. Na região de Irecê, no semiaacute;rido, as propostas de negócio com o objetivo de comprar ou arrendar terras têm sido freqüentes.
É o que revela o presidente da Cooperativa de Agricultura Familiar do Território de Irecê (Coafti), Wilson Carvalho Machado. “Tem aparecido muita gente de vários Estados do Brasil e também de fora do País por aqui”, conta Machado. “As ofertas podem parecer tentadoras, mas é necessário muita cautela. Temos orientando os agricultores a não venderem as terras.
Na pior das hipóteses, arrendálas, desde que o contrato seja bem analisado”, frisa. Segundo Machado, esses investidores chegam a oferecer até quatro vezes mais do que o valor da terra. “Nesse momento, pode parecer muito dinheiro, mas não é. Esse dinheiro acaba e o agricultor vai fazer o quê?”, argumenta Machado.
“Agora é nossa chance de produzir e ficar na nossa terra”, diz, referindose à produção e processamento de mamona para biodiesel. O presidente da Coafti lembra ainda que os agricultores estão se organizando para extrair o óleo bruto da mamona, o que agregará mais valor ao produto.
CAUTELA – Esse interesse nas terras do semiaacute;rido brasileiro é visto com preocupação, também, por movimentos sociais da região. O alerta é para que os agricultores baianos não tomem decisões a respeito desse tipo de oferta de compra de terras sem avaliar bem a proposta dos compradores e as conseqüências do negócio.
“Existem casos concretos aqui, na região de Juazeiro, principalmente de arrendamentos, que são feitos por muitos anos e com contratos muito ruins para o agricultor”, conta Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Em alguns, casos, segundo Malvezzi, o arrendamento para produção de cana-de-açúcar, matériaprima do etanol, está sendo pago em sacos de açúcar. “Além disso, serão vários anos que a terra será trabalhada em monocultura. Em que condições o solo será devolvido? Esta é uma questão importante a ser avaliada”, informa.
“No caso de proposta de venda da terra, é importante pensar na alternativa de renda que o agricultor e sua família terão. Sabemos que migrar para grandes centros não é solução”, frisa Malvezzi.