Embrapa testa uvas nacionais para vinho ao gosto popular
Recife, 12 de Novembro de 2007 - Iniciada há duas décadas por produtores do Rio Grande do Sul, a produção de uvas no Vale do São Francisco é a única no mundo com duas, ou até três safras por ano, graças ao clima semi-árido, quente durante o dia e frio à noite. Aliada à irrigação, as condições foram ideais para a instalação da vitivinicultura que trouxe as variedades francesas de Shiraz e Cabernet sauvignon para os tintos e Chenin blanc e Sauvignon blanc para os brancos, presentes em 90% dos vinhos finos produzidos na região.
Novas variedades da Espanha, Portugal, Itália, Alemanha e da própria França, introduzidas em 2004, estão sendo avaliadas no laboratório de Enologia do Centro Tecnológico da Uva e do Vinho inaugurado no ano passado em Petrolina (PE) pela Embrapa, pelo Instituto do Vinho do Vale do São Francisco e entidades oficiais para identificar que tipos de vinhos essas novas uvas poderão gerar.
O que se vê, é que nem só de vinhos finos viverão os produtores do Submédio São Francisco. A Embrapa Semi-árido e o Instituto Tecnológico de Pernambuco (Itep) estão construindo um laboratório de sucos para testar as variedades das uvas nacionais Isabel precoce, Cora e Rúbia. Criadas pela Embrapa, elas descendem das americanas da família Vitis labrusca e podem ser consumidas como uvas de mesa ou industrializadas como sucos e vinhos comuns ou populares. "Estamos testando para saber quais as variedades serão mais rentáveis", diz o pesquisador de Enologia da Embrapa Semi-árido, Giuliano Pereira. Segundo ele, no Brasil, o mercado de sucos é de largo consumo e aceito por todas as classes. Com duas safras de uvas ao ano, o semi-árido pode atender ao final da safra do Sudeste, no segundo semestre.
Enquanto as pesquisas se aprofundam, a Vitivinícola Lagoa Grande, instalada no município de Lagoa Grande, a 680 quilômetros do Recife, deu a largada e está investindo R$ 1 milhão na produção de sucos e vinhos populares. O projeto-piloto, lançado no meio do ano, consegue produzir diariamente 300 garrafas de 500 mililitros do suco Sol do Sertão, consumindo 300 quilos de uvas, num processo artesanal que, segundo o empresário Jorge Garziera, está indo bem e irá crescer no primeiro semestre de 2008 com o plantio de mais 10 hectares de uvas na fazenda. "Em dois anos vamos ter 500 toneladas de uvas para produzir 250 mil garrafas de suco por ano", calcula. O foco é um nicho de mercado que procura sucos orgânicos, naturais, sem conservantes e que, com 18 graus prix, segundo ele, pode ser consumido até por diabéticos.
A Lagoa Grande, que produz os vinhos finos Carrancas e Garziera, lançou no mês passado o vinho popular Cantina do Sertão, produzido com 50% de uva Isabel (de sucos), 25 % das víniferas Shiraz e Cabernet e 25% de uvas moscatéis . "Com essa mistura, ele não é exageradamente popular e chega às gôndolas a R$ 6,00 a garrafa de 750 mililitros", diz Garziera.
Gaúcho, acostumado a tomar vinho desde criança, ele aposta nessa nova linha para criar no nordestino o hábito de tomar vinho, bebida só consumida na região durante a Páscoa, São João e as festas de fim de ano. "Pela cultura, pelo calor e o poder aquisitivo, os nordestinos preferem o vinho popular, frutado, aromático, doce e mais em conta. Não adianta querer criar um hábito sem mudar a oferta para o gosto do consumidor", analisa.
A fim de sedimentar a cultura do vinho na região, Garziera investe também no Enoturismo. Está construindo um complexo enoturístico e gastronômico com chalés e um restaurante na Fazenda Garibaldina, sede do Grupo Garziera, localizado no distrito de Vermelhos, distante 20 Km da sede de Lagoa Grande. A proposta é oferecer palestras e cursos para o público que quer conhecer mais sobre vinhos e gastronomia, passando três a quatro dias na fazenda.