Uvas sem sementes e sem fronteiras
Com duas safras de uva ao ano, o Vale do São Francisco, norte do Estado, mantém o posto de maior exportador da fruta no País. Em Juazeiro (500 km de Salvador), os produtores estão no fim da segunda safra, e os contêineres já trafegam pelas BRs levando a fruta para os portos nas principais cidades de onde serão levados para os mercados americano e europeu.
Uma das variedades mais apreciadas nos últimos anos e responsável por grande parte das exportações, a uva de mesa sem semente é hoje o carro-chefe de algumas fazendas, a exemplo dos 23 hectares do produtor Flávio Uzukami. Ele e o irmão Emerson, produzem uvas há 12 anos, associados da Cooperativa Agrícola de Juazeiro (CAJ).
Mesmo tendo duas safras ao ano, diz Flávio, a primeira, em abril, é menor devido ao período chuvoso. O investimento maior é na segunda safra, a partir de setembro.
“Este ano, nós conseguimos chegar a 30 toneladas de uva sem semente por hectare, numa média de 27 a 28”, conta.
Hoje possui 4 hectares de uva com semente. Flávio aponta alguns problemas que ainda devem ser resolvidos, como ausência de mão-de-obra capacitada, altos impostos e queda do dólar, que interfere na comercialização.
Cuidados
O fato de a uva sem semente ser mais sensível que as demais faz com que os produtores precisem investir em cuidados na hora do trato com a fruta. A produção dos irmãos Uzukami já está a caminho dos EUA e Inglaterra.
Na área de Sidney Fukagawa, no entanto, o trabalho está sendo finalizado e ainda é possível encontrar homens trabalhando na colheita da uva sem semente e na packing house (casa de embalagem), onde a fruta é selecionada e preparada para exportação. Sydney, que está desde 1985 no Vale.
Veio de São Paulo, como outras dezenas de produtores que vieram investir na região.
Origem
De acordo com a pesquisadora da Embrapa SemiAacute;rido Patrícia Coelho, a produção de uva sem sementes na região do Vale tem aumentado bastante nos últimos anos, despertando o interesse dos viticultores pelos elevados preços no mercado externo.
“Variedades Crimson Seedless e Fantasy Seedless foram obtidas pelo programa de melhoramento genético do Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, desenvolvidas em Fresno, Califórnia, e lançadas para cultivo em 1989”, explica a pesquisadora.
No Brasil, essas variedades foram introduzidas pelo Instituto Agronômico de Campinas, recebendo o nome de Ruiva e Fantasia (Pommer, 1999). Em 1999, chegaram ao Vale em área comercial como alternativa para a produção de uva sem sementes na região.
Produção
Originada a partir da Thompson Seedless, a uva sem sementes é cultivada em lugares que têm clima quente. O Centro de Pesquisas da Embrapa em Bento Gonçalves (RS) cultiva uvas sem sementes no Vale. A perspectiva de produção este ano é de 60 mil toneladas.
Na BA-210, mas já em Sento Sé (700 km de Salvador), a empresa Frutimag emprega 1.500 trabalhadores rurais e tem 90% da produção destinada ao mercado externo.
Só no ano passado, registrou faturamento de R$ 7 milhões na exportação desta variedade.
Dificuldades
O estado das estradas da região representa um dos maiores problemas. Pela sensibilidade da fruta, é difícil transportálas sem prejuízos. Sem recursos dos governos para recuperação da BA-210 ou das BRs interligadas, as próprias empresas pagam pelos consertos para não ver o lucro esbarrar nos buracos.