Melhor valor para exportação de pluma
São Paulo, 20 de Novembro de 2007 - O produtor brasileiro de algodão conseguiu neste ano realizar um sonho antigo. Em feito inédito, fixou contratos de exportação da pluma a valores acima de 70 centavos de dólar a libra-peso. Alguns contratos até atingiram 76 centavos. Mas por conta do dólar desvalorizado, a margem do cotonicultor não é das maiores. Está estimada em R$ 0,18 por libra-peso, menor que os R$ 0,22 de 2003, por exemplo, quando a maior parte dos negócios de exportação do Brasil foram fechados para entregar por 59 centavos de dólar a libra-peso.
O volume contratado de exportação entre 69 e 76 centavos de dólar por libra-peso (no porto) soma 373 mil toneladas para entrega em 2009, segundo a Safras & Mercado. Projetando um câmbio de R$ 1,80 no segundo semestre de 2009, ou seja, quando a entrega do produto estiver sendo feita, a renda do produtor será de R$ 1,35 por libra-peso, diante de um custo de produção de R$ 1,17. "Em 2003, essa relação era de um preço recebido de R$ 1,78 por libra-peso - o câmbio no segundo semestre de 2003 era de R$ 3,07 - e o custo de produção, R$ 1,56", compara Miguel Biegai Júnior, analista da Safras & Mercado.
O receio do produtor é de que a cotação da moeda americana recue mais até 2009, fazendo com que o valor em dólares por libra-peso fixado para exportação daqui a dois anos atinja ou fique abaixo do custo de produção, segundo João Luiz Ribas Pessa, membro do conselho consultivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa).
Algo semelhante está ocorrendo com mais de 70% do volume contratado para exportação com entrega em julho do ano que vem, segundo Biegai.
Até o momento, explica ele, há 580 mil toneladas de pluma contratadas para exportação com entrega em 2008. Esse volume começou a ser fixado em outubro de 2005 a valores de 54 centavos de dólar a libra-peso - na época, o câmbio estava em R$ 2,30. De lá pra cá, a fixação atingiu valores maiores, passando de 65 centavos de dólar a libra-peso a partir de maio. Assim, das 580 mil toneladas, 72,5% foram vendidas a valores abaixo do custo de produção. "O que acontece é que na época, sobretudo em 2006, quando foram fixadas metade do volume, o produtor calculava que o custo de produção da safra que vai ser colhida em 2008 seria de 60 centavos de dólar a libra-peso. Com a desvalorização do dólar no período, essa estimativa hoje é de 65 centavos", detalha o analista. Para a Abrapa, o custo já está próximo de 68 centavos de dólar por libra-peso.
O frete, por exemplo, é um dos insumos que mais teve impacto do dólar desvalorizado. Pessa, da Ampa, explica que quando o câmbio estava a R$ 2,60, o peso do transporte equivalia a 4% da tonelada da pluma, percentual que atualmente com câmbio de R$ 1,75) está entre 12% e 14%, dependendo da distância da região produtora até o porto. "Tivemos ainda alta nos custos de fertilizantes, mão-de-obra e se fala em alta nos defensivos", completa Pessa, que também é cotonicultor.
Por conta desse cenário incerto, a Abrapa estima que a área plantada de algodão no Brasil será de 1,070 milhão de hectares, praticamente estável em relação ao período anterior.