Vendas de suco para os EUA se mantêm

23/01/2006

Vendas de suco para os EUA se mantêm

Apesar das altas sobretaxas, Brasil não perde mercado

Ana Conceição
Gustavo Porto

 
Mesmo que no próximo mês o governo americano venha a impor mais uma tarifa sobre as importações de suco de laranja do Brasil, com a alegação de prática de dumping, os Estados Unidos devem continuar comprando o produto brasileiro, pelo menos no curto prazo, por falta de opções de fornecedores.

No dia 9 de janeiro, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos concluiu que a indústria brasileira vende suco a preços entre 9,73% e 60,29% abaixo do valor de mercado. Em agosto do ano passado, a agência tinha divulgado uma decisão preliminar, na qual já considerava que o Brasil praticava dumping. Desde então, a indústria brasileira paga em forma de tarifa os porcentuais definidos na investigação sobre o dumping.

A decisão definitiva sobre a taxa será anunciada em 21 de fevereiro pela Comissão Internacional de Comércio (ITC), do governo americano. Além da taxa que vai ser imposta, o Brasil já paga uma tarifa de US$ 418 por tonelada de suco que entra nos Estados Unidos.

Apesar da pesada taxação, o fluxo das exportações para o mercado americano não deve ser afetado por conta da quebra da produção de laranja da Flórida, depois dos furacões de 2004 e 2005, que fizeram despencar a oferta de suco no mercado local.

“As últimas duas safras mudaram o cenário econômico da citricultura na Flórida”, afirma Margarete Boteon, pesquisadora especializada em mercado de citros do Centro de Pesquisa em Economia Aplicada da Esalq/USP.

De acordo com a Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus), a região do Nafta (EUA, México e Canadá) comprou 201.828 toneladas de suco de laranja concentrado brasileiro em 2005, um aumento de 32,9% sobre as 151.882 toneladas importadas em 2004.

Ao mesmo tempo, números do Departamento de Citros da Flórida indicam que a produção de suco de laranja no Estado caiu de 1,042 milhão de toneladas na safra 2003/2004 para 656 mil toneladas em 2004/2005. Em 2005/2006, a produção deve crescer para 714 mil toneladas, bem abaixo de dois anos atrás.

Como Brasil e Flórida praticamente dominam o mercado de suco de laranja concentrado, os Estados Unidos não teriam muita opção a não ser comprar o suco brasileiro. A redução da oferta ocorreu de forma drástica nos EUA e, no mercado internacional, o preço disparou de US$ 800 a tonelada para US$ 1.000, com picos de US$ 1.700.

“Eles precisam do suco brasileiro e devem importar o produto, mesmo com a tarifa”, diz Margarete Boteon. “Com os preços do suco nos patamares atuais, as exportações são viáveis.” Ela acredita que em 2006 os EUA deverão comprar as mesmas 200 mil toneladas de suco brasileiro que importaram em 2005.

O déficit na oferta no mercado americano permite que o comércio continue, mas o Brasil poderia estar vendendo muito mais, não fosse a tarifa. Numa situação inversa, em que não houvesse déficit no abastecimento nos Estados Unidos, a taxação poderia simplesmente inviabilizar a venda do produto para o mercado americano. Por isso, a tarifa antidumping pode prejudicar mais a exportação futura.

CENÁRIO

Em termos mundiais, o cenário para 2006 será de oferta restrita e preços altos. A Abecitrus indica que a indústria brasileira deve processar na safra 2006/2007, a ser iniciada em julho, 260 milhões de caixas de laranja (de 40,8 quilos).

O presidente da Abecitrus, Ademerval Garcia, estima que a indústria começará a próxima safra com estoques entre 120 mil e 130 mil toneladas de suco de laranja. Há algumas safras, por exemplo, esse estoque foi de 400 mil toneladas.

A exportação brasileira deve fechar o ano também estável, na casa de 1,4 milhão de toneladas. “Estamos vendendo mais suco do que produzindo”, resume Garcia.

Carlos Rocha, gerente de mercado de suco concentrado do Grupo Nova América, acha que a indústria brasileira vai produzir e exportar o que puder. “Vai sobrar menos produto para o mercado interno”, afirma.

Com sede em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), a companhia destina 20% do seu processamento para o mercado interno e produz suco para 19 marcas brasileiras, entre elas Danone, Carrefour e Native (orgânico), além de uma marca americana.