Terra morta: bem cuidada, germina
Terras secas, desemprego e baixo índice de desenvolvimento humano ajudam a compor um cenário de desesperança no semiaacute;rido baiano. A região parece ser condenada a histórias de sofrimento. Isso se perdurar a visão pessimista e cômoda. Iniciativas como a do Instituto de Permacultura da Bahia mostram que a terra não está morta.
E, se bem cuidada, germina não só o verde, como brota uma vida mais decente para as pessoas.
Com o projeto Policultura no SemiAacute;rido, o instituto está desenvolvendo novas perspectivas de preservação ambiental para o sertão e aumentando a oferta de alimentos para as famílias de Umburanas, Ourolândia e Cafarnaum.
O rendimento dos campos diversificados consegue ser, em média, 40% superior ao da roça de monocultura, além de garantir produtos mesmo durante a seca. A experiência do Instituto de Permacultura da Bahia foi certificada e premiada pela Fundação Banco do Brasil no último dia 12.
Inovação
O Instituto de Permacultura da Bahia foi a única iniciativa baiana entre as oito que receberam o prêmio de Tecnologia Social, durante festa em Brasília. O Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social recebeu, este ano, 782 inscrições. Desse total, 120 foram certificadas, das quais, 24 selecionadas como finalistas.
Organizações baianas inscreveram 48 experiências, dez foram certificadas, mas apenas a Policultura no SemiAacute;rido levou o prêmio por inovação, exemplaridade, transformação social e potencial de reaplicabilidade. O projeto baiano foi contemplado na categoria Nordeste. A experiência propõe o plantio diversificado em contraposição à monocultura, que empobrece o solo, deixando-o sensível à ação de pragas e doenças, e gerando dependência de apenas uma cultura para a família de agricultores.
Já a policultura incrementa a fertilidade do solo e promove a recuperação das áreas
degradadas. A plantação de diversidade na mesma área é, sobretudo, a imitação da própria natureza, além de contribuir para a segurança alimentar da população, à medida que reintegra produtos saudáveis para a alimentação, explica a coordenadora do instituto, Cinara Sanches A partir do projeto, os agricultores passaram a plantar, em agroecossistemas de mil metros quadrados, pelo menos dez plantas nativas, que têm como característica o acúmulo de água nas raízes, caules e folhas. A técnica garante um solo mais úmido durante todo o ano e um sistema de irrigação natural para hortaliças, grãos, leguminosas, árvores frutíferas e lenhosas, plantadas em conjunto.
Planos
A coordenadora do instituto e do projeto de policultura, Cinara Sanches, conta que o prêmio de R$ 50 mil, a princípio, está sendo pensado para montar uma ou duas usinas de beneficiamento de produtos. A idéia é profissionalizar o processamento – hoje artesanal – de produção de sucos de umbu, caju, serigüela e abacaxi.
No ano passado, já foram produzidos 150 mil litros dos sucos, usados para o consumo dos próprios agricultores. “Com este recurso, podemos produzir dentro das normas de comercialização, com rótulo e selo. Seria o primeiro produto formal dos agricultores para o mercado”, explica Cinara, que há um ano já tentava captar recursos para viabilizar o projeto.
“Esta é uma idéia de nossa equipe, mas vamos consultar os agricultores.
São eles que vão decidir. Se tiverem uma idéia melhor, o instituto encampará”, diz, revelando o caráter de gestão compartilhada da organização. Cinara também reconhece que a premiação não se restringe ao prêmio de R$ 50 mil.“Isso não é o mais importante (o dinheiro). Um prêmio desse abre muitas portas”, garante.O que é permacultura? Foi na década de 70, na Austrália, que o professor e o aluno (Bill Mollison e David Holmgren, respectivamente) desenvolveram pesquisa que alia conhecimento tradicional e técnicas modernas para conseguir resultados menos impactantes na agricultura.
A permacultura veio para o Brasil pelas mãos da americana Marsha Hanzi, que escolheu a Bahia para fundar o primeiro instituto do gênero no País.
Projeto promove qualidade de vida para as pessoas
O projeto de policultura é um dos cinco em execução pelo instituto, criado há 15 anos para divulgar a permacultura no Estado. Quando iniciou a experiência de policultura no semiaacute;rido, há cerca de oito anos, 15 famílias participaram do desafio.
Ao final do primeiro ano, 14 desistiram porque esperavam resultados imediatos.No ano seguinte, uma parceria com o Banco do Nordeste viabilizou a inclusão de 40 novas famílias. O único agricultor resistente da primeira turma foi Gilvandro Xavier, da comunidade de Aurora, em Ourolândia. Gilvandro já tinha ido várias vezes para São Paulo com o intuito de trocar o semiaacute;rido pelo sonho de uma vida melhor na cidade.
Mas o projeto o ajudou a redescobrir a riqueza natural da própria terra. Gilvandro continua no projeto, gerou trabalho para outras pessoas e já conseguiu comprar o tão desejado computador para os filhos.
Atualmente, o projeto de policultura envolve 748 famílias, com cerca de 4 mil pessoas beneficiadas diretamente, em 69 comunidades de Ourolândia, Umburanas e Cafarnaum.
"Descobri com a permacultura que a terra precisa se alimentar, assim como o ser humano", conta Vanúzia Almeida, agricultora de Umburanas que recebeu o prêmio em Brasília. No primeiro ano de experiência de Vanúzia com a técnica, a chuva não ajudou."Fiquei triste, mas não pensei em desistir. Você tem de cuidar da terra como um filho, pensando no futuro dela", ensina a agricultora.