Bertin compra Vigor e acirra concentração no setor de alimentos

27/11/2007

Bertin compra Vigor e acirra concentração no setor de alimentos

 


Segundo Douglas de Oliveira, consolidação continua e empresa está atenta a outros negócios, como aves e suínos
Em mais um sinal de que a consolidação no setor de alimentos é um movimento sem volta, o grupo Bertin anunciou ontem a compra do controle da Vigor, que atua em lácteos e gorduras vegetais. O anúncio, que acontece pouco mais de um mês depois de a Perdigão comprar a Eleva e ultrapassar a Sadia em faturamento, levantou uma questão no mercado: qual será o próximo negócio? 
Apesar de a Vigor, que era controlada pelo empresário Carlos Alberto Mansur, estar à venda há pelo menos dois anos, a aquisição do controle pelo Bertin surpreendeu o mercado. O fato é que o grupo com sede em Lins ficou para trás na onda de abertura de capital dos frigoríficos de carne bovina este ano, mas ao adquirir 56% das ações da Goult Participações, que detém 74,69% do capital da Vigor, deu a volta por cima e fortaleceu sua estratégia de diversificação. 
As empresas não divulgaram o valor da operação, mas o Valor apurou que o negócio foi da ordem de R$ 400 milhões. Metade do montante foi pago no ato e o restante será quitado em até dois anos, quando a Bertin S.A terá a opção de comprar os 44% de participação da Goult Participações. Do total de ações da Vigor, 25,31% estão na bolsa. 
As negociações entre Bertin e Vigor duraram apenas dois meses, e a operação foi fechada entre as famílias controladoras. Antes de negociar com o Bertin, a Vigor chegou a conversar com a Perdigão, que depois comprou o controle da Eleva (dona das marcas Avipal e Elegê) por R$ 1,7 bilhão. 
Fontes graduadas afirmam que o Bertin vinha em busca de uma parceria nos últimos meses e com esse objetivo procurou, entre outras empresas, a Perdigão. A proposta, nesse caso, seria de fusão, que não teria ido para frente sobretudo pelos valores imputados pelo Bertin a ele próprio e à Perdigão, que não concordou com os números. O diretor-financeiro do Bertin, Douglas de Oliveira, disse que a informação "não tem fundamento". A Perdigão, em período de silêncio, não se pronunciou. 
Segundo Oliveira, a aquisição da Vigor permitirá acelerar o crescimento do Bertin e está dentro da estratégia da empresa de desenvolver novos mercados na cadeia de proteína animal. Do lado da Vigor, o diretor-financeiro Nelson Ambra Castro Júnior, afirmou que a empresa era a "última jóia da coroa" no setor de lácteos no país. De fato, a Perdigão já havia comprado as duas outras nacionais de porte significativo: Batavo e Eleva. 
Douglas Oliveira disse que o foco do Bertin com a aquisição são os produtos de maior valor agregado, como iogurtes, queijos, manteiga e requeijão, que respondem por 65% do faturamento da Vigor. Em iogurtes, por exemplo, a empresa tem 6% do mercado nacional, na terceira posição atrás de Nestlé e Danone. Já em leite fermentado tem participação de 8,7%, atrás do Yakult, que tem 9,3%, segundo Oliveira. 
O Bertin deve tirar vantagem do que é uma fragilidade para a Vigor - a empresa atua basicamente no Sudeste. De acordo com o executivo, o Bertin pretende ampliar os canais de distribuição no Sudeste utilizando a estrutura da Vigor. Ele também vê possibilidade de sinergias nas compras de insumos, o que garantirá ganhos de escala. 
Castro Júnior, da Vigor, disse que a empresa viu na venda para a Bertin a saída para atuar em outros mercados, já que hoje está restrita ao Sudeste. "Queremos crescer para outras regiões", disse, acrescentando que o plano é construir fábrica nas regiões Norte ou Nordeste. Atualmente, a Vigor tem três plantas em São Paulo (capital, São Caetano do Sul e Cruzeiro), Santo Inácio (PR) e São Gonçalo de Sapucaí (MG) e Anápolis (GO). 
As empresas informaram que que a gestão da Vigor será compartilhada e que Carlos Alberto Mansur permitirá como principal executivo da companhia. 
Com faturamento estimado em R$ 6,3 bilhões este ano, sendo 38% na exportação, o Bertin espera ampliar a receita bruta para a casa dos R$ 8,4 bilhões em 2008 com a compra da Vigor. Seriam R$ 7,3 bilhões do Bertin e R$ 1,1 bilhão da Vigor. Para este ano, a previsão é de que a Vigor fature R$ 900 milhões a R$ 950 milhões, segundo Oliveira. 
O diretor do Bertin disse que o processo de consolidação da empresa continua, e a meta é se tornar uma das maiores em proteínas animais. Para isso, olha também ativos em suínos e aves, admitiu. 
A estratégia do Bertin lembra muito à da Perdigão, que também aposta em diversificação e internacionalização. A empresa já indicava esse caminho desde 2005, mas ficou mais agressiva depois de ter sido alvo de oferta de compra hostil da Sadia, em julho do ano passado, que não vingou. 
Após as grandes operações deste ano, quando a JBS-Friboi comprou a americana Swift Foods, a Perdigão comprou a Eleva, o Bertin adquiriu a Vigor e a Tyson prepara-se para entrar com a aquisição do controle da Pena Branca, o mercado pergunta qual será o próximo negócio. Fontes do setor afirmam que depois de a Perdigão ter comprado a Eleva, a Sadia conversou com a mineira Pif-Paf e também esticou o olho para as operações da francesa Doux, no Brasil e no exterior. Por meio da assessoria, a empresa nega ambas as informações. No segmento de lácteos, um ativo atraente seria a Itambé, central cooperativa mineira, dizem fontes. 
Para Pedro Galdi , analista da corretora do Banco Real, "a porta pra a consolidação" no setor de alimentos está "aberta". Surpreso com o negócio , ele destacou que a estratégia do Bertin difere de concorrentes como Marfrig e JBS, que apostaram principalmente na internacionalização, mas estão mais focados em carnes. 
O Bertin tem investido na verticalização e na diversificação. Com 30 unidades, a empresa atua em alimentos, couro, higiene, equipamentos de proteção individual, pet, construção, rodovias e saneamento, biodiesel, etanol e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Um especialista diz que o negócio foi "brilhante", já que o Bertin investe num momento de dificuldades no setor de bovinos. Ele teme, porém, o risco de diversificar demais. 
Douglas Oliveira disse que o plano do Bertin de abrir capital no primeiro trimestre de 2008 segue em pé, mas a compra da Vigor, que é aberta, não o acelera. Com a notícia ontem, as ações da Leco, controlada da Vigor, tiveram a maior alta da bolsa, com ganho de 43,61%. As da Vigor subiram 3,62%.