Preço do leite cai, e produtor enfrenta crise

25/01/2006

Preço do leite cai, e produtor enfrenta crise

ANA RAQUEL COPETTI


O setor de produção de leite no país iniciou o ano em um cenário de crise. Enquanto a produção cresce, o consumo interno continua estagnado, e a taxa cambial é desfavorável para exportar. Os focos de aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná acabaram por desarrumar de vez as contas dos produtores nos dois Estados.
Nos últimos 12 meses, a média nacional do valor do produto caiu de R$ 0,51 para R$ 0,38. A expectativa otimista do início de 2005 foi ditada pelo comportamento do preço da matéria-prima em 2004, que permaneceu estável em R$ 0,58 o litro, caindo para R$ 0,51 apenas nos meses de safra em alta.
Os bons preços levaram a uma explosão produtiva. A produção brasileira cresceu 6%, em 2004, segundo o IBGE. E, no ano seguinte, saltou para 13,7% de janeiro a setembro. Para o produtor, no entanto, o preço caiu 19,4%.
A queda do preço na ponta de produção rende lucros ao restante da cadeia produtiva. A Comissão Nacional de Pecuária do Leite diz que as indústrias e os supermercados continuaram somando ganhos em cima da matéria-prima.
No ano passado, o Brasil produziu 25 bilhões de litros de leite. Segundo o IBGE, há 1 milhão de produtores. Os EUA, com produção anual de 77 bilhões de litros, têm 80 mil produtores.
O presidente da Comissão Nacional da Pecuária do Leite, Rodrigo Alvin, diz que o consumo está estagnado há quase dez anos em 130 litros por habitante ao ano, abaixo dos 180 litros recomendados pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O setor defende que o governo adote campanhas sistemáticas de consumo para colocar o leite no cardápio diário do brasileiro na quantidade recomendada.
A assessora econômica da Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Adriana Mascarenhas, diz que a estagnação é reflexo da baixa renda. ""O primeiro item a cortar na cesta básica é o produto lácteo", diz ela. Basta ver que nem mesmo a queda no preço final incentivou o aumento do consumo atual. De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, o custo de alimentação subiu 5,1% em 2005, mas no setor lácteo houve redução de 2,7%.
Outro agravante da crise, aponta o assessor técnico da Comissão de Pecuária do Leite, Marcelo Martins, é o ritmo fraco das exportações. Em 2005, o real valorizado segurou as vendas ao mercado externo. Elas cresceram 36%, mas a importação subiu 44%.
Os produtores de leite reivindicam medidas inibidoras da importação, como a cobrança de tarifas do produto lácteo importado e ações contra o "dumping" (preço aquém do valor de custo para ganhar o mercado).
Líder nacional na produção de leite, com 30% do volume, Minas Gerais é o Estado menos afetado com a baixa nos preços.