Mandioca pega carona nos grãos
São Paulo, 29 de Novembro de 2007 - As altas nos preços do milho estão valorizando também um outro produto, considerado periférico na agricultura nacional: a mandioca. A correlação está no amido, um produto que pode ser feito de milho ou de mandioca, e que é usado nas indústrias de alimentação, siderurgia e de papel. "O aumento nos preços do milho e as perspectivas de novas altas, além de escassez do grão no mercado, estão fazendo com que essas indústrias, antigas clientes da mandioca, voltem a consumir o amido dessa raiz", diz Ivo Pierin Júnior, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca.
O resultado é que desde junho, o produto se valorizou 42%, segundo Pierin, saindo de R$ 0,70 o quilo para R$ 1, se equiparando ao valor do amido de milho. Esse valor é o maior desde 2004, quando uma forte quebra na safra de mandioca no Brasil provocou preços de R$ 2 no quilo e uma afugentação de clientes industriais da mandioca, conforme recorda Pierin.
E a perspectiva para o próximo ano é de que os preços se mantenham em alta e que o amido de mandioca aumente sua participação no cenário nacional. "Atualmente, temos um terço de todo o mercado de amido do Brasil. O restante é do milho. Esperamos elevar esse percentual no médio prazo", diz o executivo.
O Brasil produzirá em 2007 em torno de 650 mi toneladas de amido de milho, em torno de 20% mais que em 2006.
Os dois amidos (milho e mandioca) são substitutos em 70% a 80% das aplicações industriais. Em alguns setores, é preferível o uso da mandioca, como na fabricação de papel fino. "Nesse caso, o amido de mandioca tem vantagem por ter uma coloração mais clara e por ter uma viscosidade menor, o que permite aumentar a velocidade das máquinas na indústria", acrescenta.
Atualmente, em torno de 50% da produção de amido do Brasil segue para alimentação. Nesse setor, 30% é usado na panificação e, 18%, em embutidos, ramo no qual o amido de mandioca tem vantagem sobre o milho, por ter características em temperaturas baixas mais adequadas.Produção
No campo, o produtor de mandioca também está sentindo melhores preços. Atualmente, o valor pago é de R$ 165 a tonelada, em torno de 36% maior que o pago até agosto, segundo informa Kleto Lanziani Janeiro, presidente da Associação dos Produtores de Mandioca do Noroeste do Paraná (Abroman), que detém 30% da produção nacional, que neste ano deve atingir 26 milhões de toneladas. "A partir de janeiro, entra mais oferta de mandioca no mercado, no entanto, a expectativa é de que esse valor se sustente ou não caia tanto quanto nos anos anteriores, por conta dos fortes preços do milho", avalia o presidente da Abroman
Ele acredita que no próximo ano a produção de mandioca deve crescer, uma vez que os preços estão fortalecidos e trazendo boa remuneração ao mandiocultor, que tem custo de produção de R$ 120 por tonelada, margem bruta de 37% diante do preço de R$ 165, atualmente praticado no mercado.
Ele garante que o produtor não está segurando mandioca para forçar a alta de preços. "O que tínhamos de estoque já acabou. E o que era para colher já foi colhido, afirma.
O aquecimento do mercado da mandioca está trazendo mais indústrias ao setor, segundo Pierin, da Abam. Ele estima que nos últimos dois anos, houve um aumento de 15% na capacidade instalada, atualmente em torno de 1,5 milhão de toneladas. "Algumas indústrias estão se instalando no Centro-Oeste e no Norte", completa o executivo.
Se confirmar a produção de 650 mil toneladas, a indústria de amido de mandioca estará com capacidade ociosa de cerca de 45%. "Esse percentual será reduzido na medida em que conseguirmos recuperar o mercado que perdemos em 2004", aposta Pierin.