No campo, elas também são um exemplo de organização

12/12/2007

No campo, elas também são um exemplo de organização


 Em dezessete municípios da região de Feira de Santana, o trabalho de 480 produtoras está mostrando as possibilidades da agroindústria familiar. Elas se uniram e estão à frente de 34 empreendimentos responsáveis pelo processamento de alimentos e fibras, bem como da produção de artesanato, para fins comerciais.
O resultado é que o trabalho de muitas delas hoje é a principal ou a segunda fonte de renda das famílias.
“Muitas, inclusive, ganham mais que os maridos“, conta a produtora rural Patrícia Nascimento, coordenadora-geral da Cooperativa da Rede de Produtoras da Bahia (Coopere de).
Patrícia, que processa frutas e leite, relata que, antes da organização dessa atividade, as mulheres faziam trabalhos assalariados nas lavouras e ganhavam entre R$ 10 e R$ 12 por dia. “Agora ganhamos mais e com o trabalho organizado que realizamos ganhamos também com a elevação da auto-estima“, diz. Os produtos feitos por elas são vendidos em duas feiras da Cooperede, uma em maio e outra em dezembro, e em feiras nacionais e internacionais. Hoje, uma delas estará embarcando para o Chile. Patrícia já esteve na Itália.
Para as viagens mais próximas, elas mesmas bancam com os custos.
As viagens internacionais têm parceria com a Petrobras, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC), uma ONG de Feira de Santana. Patrícia explica que para cada viagem é escolhida uma representante, que comercializa o produto de todas.
“É um trabalho de solidariedade“, frisa. A cooperativa tem ainda um fundo, alimentado com 5% das vendas realizadas por elas.
O trabalho dessas mulheres é um exemplo do que está ocorrendo na agricultura familiar baiana: a atuação feminina como principal força da micro-agroindústria. “Os dados da área são gerais, mas é evidente a predominância de mulheres nesse setor, principalmente no processamento de alimentos”, relata a pesquisadora Maria das Graças Carneiro de Sena, da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, de Cruz das Almas. Assim, a força de trabalho feminina tem cada vez mais importância na composição de renda. “Foi sempre um trabalho muito relevante, mas sem reconhecimento”, critica a pesquisadora da Embrapa.
De acordo com Wilson Dias, diretor de Apoio à Organização da Produção da Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri), na agricultura familiar, o processamento dos produtos pode representar incremento de 70% na renda das famílias.
A importância da agroindustrialização tem levado a Seagri a desenvolver trabalhos em todo o Estado. Um deles é a qualificação dos empreendimentos já existentes, que, conforme estimativa, sejam da ordem de 400. Para 2008, está previsto o início dos trabalhos de sete bases de serviço para apoio administrativo dessas microagroindústr ias.
Outras ações são a criação de cooperativas e o desenvolvimento de uma lei estadual específica para esses empreendimentos, que atualmente são regidos pela mesma legislação de grandes empresas.
Dias lembra que, ao processar o produto agrícola, os ganhos vão além do valor agregado. “É uma forma de reduzir perda de produtos in natura, porque o processamento dá mais tempo para a comercialização”, conclui.