Época da silagem está próxima
O produtor Francisco Coutinho Coelho, de Juazeiro, nunca deixa de preparar feno, a partir de capim e de favela (Cnidoscolus phyllacanthus) – um arbusto de grande porte muito comum no semiaacute;rido – para alimentar, no período de seca, os 300 caprinos que mantém na propriedade. O armazenamento de forragens, a partir da fenação ou da silagem, é uma estratégia fundamental para a pecuária do semiárido, onde a produção de massa verde cai vertiginosamente durante o período de seca.
“É importantíssimo ter o feno para alimentar os animais”, frisa o agricultor, lembrando que sem essa reserva há necessidade de compra de ração, o que é economicamente inviável, principalmente na agricultura familiar – predominante no semiaacute;rido. Coelho lembra que a época para produzir e armazenar o feno está próxima, entre fevereiro e março – período em que as plantas estão florescendo em razão das chuvas de final de ano. “Tem que colher o material nessa época, colher verde”, explica.
“E não pode deixar secar demais para armazenar, tem que ter uns 15% de umidade”, aconselha.
A prática adotada por Francisco Coelho tem sido recomendada por pesquisadores da área, principalmente a partir do uso de plantas próprias da caatinga, como favela, maniçoba, catingueira, aroeira, jurema, dentre outras. “A flora do semiárido tem várias espécies de forrageiras nativas, que são bem aceitas pelos animais.
Utilizar essas plantas é uma alternativa econômica, porque não exigem cuidados culturais e têm boa qualidade nutricional. Trazer espécies novas representa mais custos”, frisa o médico veterinário Pedro Alves da Silva, da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agropecuário (EBDA).
Cursos
Silva informa que a EBDA oferece cursos de manejo de rebanho, nos quais ensina os usos de plantas nativas para fenação. De acordo com Silva, após os períodos de chuva, os galhos mais tenros devem ser cortados e colocados para secar em área cimentada (terreiro) ou plástico entre 24 e 48 horas. “É necessário ir movimentando os galhos durante a secagem”, explica.
Depois, tritura-se e o produto é guardado ensacado ou em tonéis.
“Em todo o processo, o custo é apenas de mão-de-obra”, frisa.
“Não se pode secar demasiadamente, é necessário que mantenha a cor esverdeada”.
O feno é utilizado na alimentação animal como volumoso, associado aos farelos de soja e de milho e sal mineral. Para a época de seca, o ideal é que o criador tenha 30 quilos de feno por mês para cada animal (caprino ou ovino).
Palma
Silva recomenda ainda que os agricultores tenham uma área cultivada com palma – outra importante fonte de alimento para os rebanhos na estiagem. “A palma é um excelente reservatório de água e bastante resistente à seca”, diz o veterinário. Segundo ele, após dois anos do plantio – feito por mudas – a planta produz cerca de 300 toneladas por hectare, o que dá para alimentar 160 caprinos ou ovinos durante 180 dias. A palma pode ser usada como parte da dieta animal e consumida in natura.
O plantio da palma deve ser feito a partir de outubro até antes do início das chuvas
Mandioca
Além da fenação, outro processo para armazenar alimentos é a ensilagem, que consiste em cortar a forragem e a conservar, compactada e vedada, em silo. Uma fonte importante de silagem é a mandioca (folhas, caule e raiz) – quarto principal produto da agricultura familiar nordestina, conforme dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). São mais de 450 mil pequenas propriedades que cultivam a mandioca no Nordeste brasileiro, em área que soma 5,7 milhões de hectares.
Estudo realizado por João Luís Homem de Carvalho, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, de Cruz das Almas, mostra que a parte aérea da planta tem o dobro das vitaminas encontradas na alfafa, apontada como uma das mais importantes forrageiras.
Na publicação “A mandioca: raiz e parte aérea na alimentação animal”, o pesquisador relata que entre 14 a 16 milhões de toneladas da parte aérea da mandioca são desperdiçadas, enquanto poderiam se ter sido transformadas em alimento para os rebanhos.