A dialética do biocombustível
"A mão que afaga é a mesma que apedreja". Nunca o verso de Augusto dos Anjos valeu tanto como para a questão do biodiesel. A euforia em relação ao combustível é notícia em todo o mundo e o Brasil tem sido considerado o grande exportador do produto que livrará a humanidade da era sem o combustível fóssil.
Se o fim do petróleo anuncia tempos difíceis nas relações econômicas do planeta, o boom do biocombustível pode ser um prenúncio de desequilíbrios ambientais e exploração das populações locais. O que era para ser comemorado como a grande salvação do planeta no que diz respeito à produção de energia limpa, a nova matriz energética poderá se tornar um pesadelo para milhares de pessoas da área rural.
A produção de matéria prima para o biocombustível tem causado uma série de discussões entre economistas, sociólogos, defensores dos direitos humanos e ecologistas.
De um lado, estão as multinacionais produtoras do combustível, do outro, os pequenos produtores e milhares de cidadãos que têm perdido espaço para a produção de vegetais capazes de gerar energia, em detrimento da alimentação.
O alerta já havia sido feito por Fidel Castro, este ano, quando o Brasil encampou uma estratégia de propaganda mundial em favor do biodiesel. Aliás, desde os tempos do PróAacute;lcool ou Programa Nacional do Álcool, somos líderes no desenvolvimento de tecnologias para a obtenção do biocombustível, feito a partir da cana-de-açúcar.
Também não é de hoje que milhares de trabalhadores rurais têm perdido suas vidas nos canaviais do país para enriquecer os usineiros, que são os que mais têm acumulado lucros desde que o governo encampou uma política a favor do biocombustível.
Porém, longe das expectativas pessimistas, existem pessoas buscando soluções para o gerenciamento sócio ambiental, não só de áreas que estão sendo direcionadas para o plantio de matrizes energéticas, mas para que aconteça uma mudança de paradigma entre o atual modo de vida e a necessidade de garantir um futuro para as novas gerações.
Brasil está no centro do debate Uma verdadeira divisão se instalou desde que se começou a discussão sobre o biodiesel. Além da discussão sobre os subsídios que os países desenvolvidos oferecem aos produtores, fala-se que a condição dos trabalhadores do campo precisa ser amplamente fiscalizada, além da inserção dos micros e pequenos produtores na cadeia produtiva.
A revista britânica "Economist" com freqüência apresenta a problemática em seus editoriais.
Recentemente, um editorial da revista fez duras críticas à política de subsídios ao etanol à base de milho.
Além de ter um baixo índice de conversão em relação a produtos como a cana-de-açúcar, o que inviabilizaria sua utilização enquanto matriz bioenergética, os subsídios estariam elevando o preço dos alimentos no mundo.
Mesmo assim, nos EUA, um terço da produção de milho será destinado à produção de combustível e não de alimentação; estima-se que esta produção chegue perto de 30 milhões de toneladas de milho. A publicação defendeu a importação do etanol brasileiro para evitar este tipo de atitude.
Os cerca de 200 subsídios diferentes para o etanol americano junto com uma tarifa de importação de 0,54 centavos de dólar por galão de etanol limitam a entrada do produto brasileiro naquele país.
O Brasil tem lutado junto a OMC Organização Mundial do Comércio contra os subsídios norte-americanos que são mais vantajosos em relação aos subsídios para outros cereais, o que estaria causando uma grande procura pela produção de milho nos EUA.
Três quartos dos pobres do mundo vivem em áreas rurais, afirma a "Economist". Países que costumavam exportar alimentos agora importam.
Segundo os especialistas, a redução dos subsídios ajudaria a reverter este quadro. O Banco Mundial calcula que, com a liberação do comércio agrícola, os preços de produtos em que os países mais pobres se especializam vão aumentar, e os países em desenvolvimento vão obter ganhos com o crescimento da exportação, aumentando a produtividade agrícola e assegurando o suprimento de alimentos.
O artigo cita o Brasil como um dos países onde estariam disponíveis terras para se arar futuramente, ao lado de outros como Rússia, Cazaquistão, Congo e Sudão. A análise também alerta para o fato de que esse desenvolvimento exigiria grandes investimentos em estradas e infra-estrutura, o que poderia levar décadas, além de provocar outros riscos, como a destruição de florestas.