La Niña não é mais uma ameaça real

26/12/2007

La Niña não é mais uma ameaça real

 

Com quase todo o plantio de verão executado - apenas os cotonicultores devem passar a virada de ano plantando - os produtores brasileiros podem respirar aliviados. Apesar do atraso inicial, por questões climáticas (mas recuperado), talvez o fenômeno La Niña não seja tão perverso como se imaginava. Então, o País pode vir a colher as 134 milhões de toneladas.
Mesmo com as chuvas ainda mal distribuídas, segundo analistas de mercado, o desenvolvimento das lavouras é satisfatório. Tanto que, nos próximos dias, o Rio Grande do Sul começa a colher a safra de milho. Os meteorologistas ainda divergem um pouco sobre o efeito real do La Niña. Em um cenário, pode haver algum risco na safra 2007/08. Em outro, não.
Até o momento, as lavouras mais adiantadas, na média brasileira, são as de arroz e soja, com praticamente 100% cultivado. Para o arroz, segundo Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, a área cultivada ficou 3,3% maior em relação à passada, totalizando 3,3 milhões de hectares. "Até agora o clima está normal para o desenvolvimento da lavoura", diz. E, mesmo em um cenário de estiagem provocada pelo La Niña no Sul, como prevê a ClimaTempo, não haveria problemas pois, segundo o ditado popular no Sul: "o arroz precisa de água no pé e sol na cabeça", uma vez que a lavoura é irrigada. De acordo com o meteorologista André Madeira, da ClimaTempo, o Sul terá redução de chuvas no verão e é a região mais influenciada pelo fenômeno.
"Se a safra encerrasse hoje, seria maior que a do ano passado, pois até agora o quadro é favorável", diz Flávio França Júnior, diretor da Safras & Mercado. De acordo com ele, apenas algumas lavouras em Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás não encerraram o plantio.
Para o milho, o plantio está na fase final, mas ainda um pouco atrasado em relação ao ano passado - cerca de oito pontos percentuais, sobretudo em Minas Gerais. "Todos os estados têm um pouco para plantar", afirma Paulo Molinari, da Safras & Mercado. No Rio Grande do Sul, de acordo com dados do governo gaúcho, algumas lavouras estão entrando em maturação, principalmente no Noroeste Colonial e nas Missões. O governo também verificou, em pontos isolados, lavouras que perderam o potencial produtivo por causa do clima adverso no início do plantio. Nas partes Central, Sul e Sudoeste do estado, o plantio tardio teve que ser interrompido devido à baixa umidade do solo.
Na avaliação de Molinari, o clima ainda não está totalmente regular e, por isso, não pode ficar muito tempo sem chuva. "Se não chover em janeiro e fevereiro, pode prejudicar", diz. Pelas previsões da ClimaTempo , no Centro-Oeste as chuvas tendem a ficar próximo à média no verão, mas abaixo dela em janeiro e março.
Enquanto alguns produtores já estarão colhendo neste final de ano, os cotonicultores devem passar a virada na lavoura. Até o momento, cerca de 60% da área foi cultivada. Mas, segundo o analista da Safras & Mercado, Miguel Biegai Júnior, o atraso é relativo, uma vez que nos últimos anos, os produtores migraram de região e têm investido na safrinha. Portanto, plantando mais tarde.
Pelos prognósticos mais otimistas, da Somar Meterologia, o Sul do País terá chuvas abaixo do normal em janeiro - mas sobretudo na Metade Sul do Rio Grande do Sul, onde a matriz produtiva é o arroz irrigado. Para o Centro-Oeste, o regime de precipitações - principalmente em Mato grosso e Goiás - será o típico de verão: sem excesso, nem falta, com alternância de dias de chuvas com sol. "Esse padrão tem sido fundamental para um bom desempenho da lavoura nesta fase. Ao ponto de alguns produtores afirmam que acelerou o ciclo", afirma Paulo Etchitchury. Segundo ele, isso permitiu recuperar o tempo perdido no início do plantio e poderá, até, possibilitar o cultivo da safrinha. De acordo com ele, o risco, na região, assim como no Sudeste, é a concentração das chuvas, mas não a ponto de prejudicar a lavoura. "Pode-se, no entanto, colher com chuva".
Etchitchury acrescenta que a fenômeno La Niña deverá continuar agindo no primeiro semestre 2008, fazendo com que o regime de chuvas seja mais curto. Isso implicaria em problemas futuros para a safrinha e até em menor reserva de água para a safra 2008/09. Mas até lá, tem muito água para rolar.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 6)(Neila Baldi)