O etanol é para todos?
Perto do que sobrou da primeira fábrica de açúcar no Brasil, construída em 1877 com uma frase em latim na entrada O doce é a recompensa pelo trabalho, Danuza Gomes da Silva corta cana-de-açúcar com uma faca brilhante.
Ela se curva para cortar varas de cana deixadas pelo caminho por outros trabalhadores em um caminhão. Ela se ajeita novamente. Um grupo de 12 pessoas como ela planta cana em cerca de 10 acres por dia. A cana-de-açúcar brota com facilidade do rego do arado, e cresce rapidamente. Mas o trabalho associado a ela é difícil.
Danuza, rosto redondo e olhos claros, ganha entre US$ 8 e US$ 13 por dia, dependendo de sua produtividade. Com 35 anos, tem quatro filhos pequenos. Apenas 20% dos 7,5 milhões de acres plantados em cana-de-açúcar no Brasil são mecanizados. O resto depende do trabalho manual como o dela.
- Não quero perder meu emprego - disse, com um sorriso no rosto e grande machado na mão. Máquinas que plantam e colhem estão se espalhando lentamente nos campos de cana-de-açúcar brasileiros. Mas a dura vida de Danuza lembra que por trás do burburinho global sobre a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar - biocombustível ambientalmente correto por excelência do século 21 - há problemas sociais graves.
O etanol, renovável e relativamente limpo, é adorável. A vida dos trabalhadores rurais brasileiros, finita e quente, não.
Raramente um país viu uma transformação tão radical quanto a do Brasil nos últimos anos. Da nada séria terra do samba, favelas, futebol e florestas tropicais, o país passou a ser o reino da produção de etanol, de carros flex que funcionam com uma combinação de etanol e gasolina, e da revolução do biocombustível que pode livrar o mundo de pagar US$ 100 por um barril de petróleo.
Onde o mundo já viu Pelé e a pobreza, ele agora vê conhecimento: um país onde 80% dos novos carros funcionam com etanol ou gasolina, toda gasolina contém cerca de 25% de etanol, e o etanol é responsável por mais de 40% do consumo de combustível.
Esses números revelam novas metas dos Estados Unidos que podem substituir cerca de um sexto do consumo de gasolina com etanol até 2020. O Brasil, em outras palavras, estava ocupado vendo o amanhã enquanto os EUA ficaram atolados no passado.
Na verdade, as duas imagens guardam alguma verdade. O Brasil lidera ao demonstrar o potencial do etanol, tem terra para expandir a indústria, usa etanol a partir da cana-de-açúcar cuja produção por hectare é oito vezes a dos EUA que fabrica o combustível a partir do milho ao custo dos preços mais altos dos alimentos, e mostrou a praticidade dos carros flex.
Mas um dia visitando as instalações para produção de cana da CBAA, fábrica de etanol e açúcar, revelou a dificuldade com que essas realizações foram conseguidas.
Um campo de cana em frente a uma área invadida por sem-terra foi incendiado de propósito. Um homem procurou desesperadamente por um cavalo que ele teria deixado ilegalmente nas plantações de cana. Do lado de fora de dormitórios temporários para trabalhadores migrantes, homens caíram embaixo de roupas penduradas para secar.
- A situação social está complicada - disse Aristoteles Ramos Cardoso, diretor da fábrica local de açúcar e etanol CBAA. - Estamos perto da cidade. Precisamos de trabalho. Não há falta de criminosos.
Se o vasto potencial de etanol produzido a partir da cana-de-açúcar deve ser concretizado, no Brasil e nos países pobres africanos, o desenvolvimento dele tem de vir de maneira ordenada para que as Danuzas e seus filhos tirem proveito disso. Um novo combustível não pode carregar a maldição freqüente do petróleo: o enriquecimento de uma pequena elite.
Isso vai depender de várias coisas: os padrões de trabalho adotados pelas hordas crescentes de investidores internacionais atraídos pelo etanol; a abertura do sistema de comércio global para esse biocombustível que muitos países pobres tropicais serão capazes de produzir; e o desenvolvimento de um mercado global de commodities de etanol com normas estabelecidas.
Sem esses padrões, o desenvolvimento vai estacionar. Assim como o progresso social.
- Os EUA podem gerar riqueza para os que precisam, enquanto se liberta da dependência do petróleo - disse José Pessoa, diretor executivo da CBAA. - Ele deveria comprar meu etanol em vez de impor tarifas ao produto. Ele deveria ajudar a desenvolver a indústria de cana-de-açúcar na África. Essa seria a forma mais inteligente e melhor para o meio ambiente.
Pessoa está certo. Os EUA devem fazer a sua parte, não menos do que liberar as importações de açúcar e etanol. O Brasil também deve fazer a sua, e ajudar uma mulher de 35 anos sob o sol com crianças precisando de educação, e todas as pessoas como ela, em meio à euforia do etanol.