Produção de pescado cai 40% e gera prejuízos

16/01/2008

Produção de pescado cai 40% e gera prejuízos

 

“O xangó me faz muita falta”. Assim, o pescador Marivaldo Almeida de Oliveira, 40 anos, resume como tem sido a vida dez meses depois da mortandade de 50 toneladas de peixes na região noroeste da Baía de Todos os Santos.
Ali, onde estão as principais comunidades pesqueiras do Recôncavo, foi a área mais afetada pela maré vermelha ocorrida em março do ano passado.
O peixe que Marivaldo se dedica a pescar desde rapaz, com rede apropriada, foi, juntamente com a carapeba, uma das espécies mais castigadas. Outro peixe que está sumido é a tainha, que o pescador Ivan Jorge Moreira de Oliveira, 33 anos teve que deixar de pescar. “Depois da maré vermelha, está muito difícil de achar o peixe, que, para piorar, é o preferido dos bombistas” (criminosos que usam explosivos na pescaria).
A saída para Ivan foi pescar camarão. Depois de quatro horas no mar, ele voltava para o Porto de Acupe, no município de Santo Amaro, ontem, com menos de um quilo do produto.

PRODUÇÃO CAIU – Para o presidente da Colônia de Pescadores de Acupe, Carlos Augusto Barbosa dos Santos, a maré vermelha provocou uma queda de aproximadamente 40% na produção do pescado. O impacto do fenômeno também afeta a mariscagem, principalmente pelo receio que as pessoas ainda têm em consumir esses produtos, conta ele.
Antônio Soares Carvalho, 36 anos, lavava a rede de pescar camarão no canal do porto da Praia de Acupe e voltava nada satisfeito.
“Da maré vermelha para cá, a pesca só fez piorar, os órgãos não olham para o pescador, que só não passa fome porque se atira no trabalho”, dizia ele. Além da redução do pescado, Antônio tinha outro motivo de indignação.
A rede voltou toda rasgada por causa dos pedaços de ferro deixados nos poços de petróleo desativados e maltapados.
A idéia de dar um “descanso” para os peixes, parando de pescar por um período chega a ser admitida. “Parar de pescar ajudaria, mas o governo teria que dar algum benefício”, disse o pescador Valdir do Sacramento Alves, voltando do trabalho com cerca de 4 quilos de camarão.
Ao chegar na coroa da tarioba, um banco de areia numa das curvas do manguezal de Acupe, onde ocorre o marisco tarioba, Jorge Ribeiro, 39 anos baixou as velas da velha canoa. O vento estava contra e era hora de lavar e guardar a rede. Estava bem-humorado, apesar de ter saído de casa a 1h30 da manhã e de, 12 horas depois, voltar com apenas cinco quilos de camarão. “Antes pegava até uns 15 quilos”, disse.
Contra a recuperação do pescado pesa também a desobediência à proibição da pesca no período do defeso. “Enquanto três param, 97 saem para pescar”, conta Jorge. Segundo ele, falta fiscalização para combater as infrações.
Também faltam fiscais para impedir a retirada clandestina de areia da coroa da tarioba, onde até oito saveiros de Cachoeira são carregados em um só dia. Junto com a areia vão também centenas de tariobas, conta Antônio Carlos Nascimento.