Subsistência ocupa lugar da cultura de irrigação no Salitre

21/01/2008

Subsistência ocupa lugar da cultura de irrigação no Salitre

 

Acampadas em uma área de 130 hectares, no Vale do Salitre, 520 quilômetros ao norte de Salvador, cerca de duas mil famílias estão obtendo sucesso com a plantação de melão, cebola, tomate, melancia, quiabo, amendoim, feijão e mandioca, a ponto de muitas delas praticamente viverem do que produzem.
Com horários de intenso trabalho, independentemente do sol e da estiagem que castigam a região norte do Estado, os acampados aproveitam a área que ocuparam há quase um ano para sobreviver do que sabem fazer: trabalhar com a terra.
Instaladas nas margens do canal do Projeto Salitre, que não tem data para ser concluído, em razão da espera de uma definição da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) sobre a relocação territorial, essas famílias mantêm um sistema de trabalho com funcionamento regular do acampamento, o maior do País.
Das áreas plantadas foram colhidas no ano passado 330 toneladas de melão, 70 toneladas de tomate, 3 mil caixas de pimentão, 30 toneladas de cebola, 40 toneladas de melancia, 700 sacas (15 kg) de quiabo e mais quantidade de abóbora, feijão e amendoim.
Mas, em meio à bonança, pontua uma ou outra dificuldade, sempre nas pautas de discussões dos assentados. "O maior problema do agricultor familiar está no valor do aluguel, nas altas taxas de água e energia", diz o dirigente doMovimento Sem-Terra da Bahia (MST), que vive no acampamento, Fábio dos Santos, acrescentando, no entanto, que os assentados do Salitre estão livres dessas despesas por enquanto.
"Ainda não enfrentamos este problema, pois, enquanto não nos derem a definição de onde poderemos ficar de vez, terra, água e energia que usamos são gratuitas", completou.
Entre uma área e outra dos 76 lotes de terra cultivada passa um canal, que jorra água vinda direto do Rio São Francisco, de modo que, de um lado a plantação é irrigada por gravidade; do outro por meio de bombas de água.

SAFRAS – No campo, os trabalhadores rurais se revezam nas tarefas que começam com o nascer do dia e só acabam no fim da tarde. Para o agricultor Wilson Alves da Silva, 53 anos, esta é uma oportunidade que não se deve desperdiçar. Com a esposa e o filho ele já colheu em seu lote uma safra de tomate e está indo para a segunda de feijão.
"A primeira é sempre menor, pois até que a terra esteja no ponto de produzir bem demora um pouco, e a plantação só começa a render agora, com a terra mais trabalhada", esclarece o agricultor.
Também Luiz Assis de Pompeu está na segunda colheita de feijão, com resultados satisfatórios, o que está estimulando os trabalhadores a preparar mais 130 ha para novas plantações.
Água eles têm à vontade e, mesmo depois da advertência feita por agricultores familiares de outras associações instaladas no Vale do Salitre sobre uso excessivo da água pelo acampamento, o que estaria atrapalhando a produção deles, a situação parece ter sido resolvida e a Codevasf libera água para o canal em diferentes horários.
"Apesar de tudo, tem semana que ficamos até três dias sem água no canal e isso atrapalha a plantação, mas estamos aqui trabalhando, fazendo nossa parte, mostrando a todos que nosso objetivo sempre foi garantir terra e cultivo aos agricultores", assegura Fábio dos Santos.
O resultado do trabalho é visto nos campos de cebola, no trabalho conjunto, nos números dos produtos plantados que são escoados através da comercialização no Mercado do Produtor de Juazeiro. "Não temos um selo, uma marca, mas fazemos nossa própria divulgação”, diz o dirigente.
Ele entende que falta ao acampamento um acompanhamento técnico qualificado para o aprendizado dos agricultores, mostrando como funciona a cadeia de produção. "Sem falar na posse da terra, com projetos financeiros de desenvolvimento de produção", completa. Mas, enquanto a solução não chega, as famílias investem na produção.
“Se tivesse mais água, dobraríamos a produção", completou o dirigente do MST.