Ecodiesel faz prova de eficiência

20/02/2006

Ecodiesel faz prova de eficiência

Programa baiano de desenvolvimento do ecocombustível aposta no marketing ambiental para divulgar o produto

Danniela Silva
  

Quando os trios elétricos de Itabuna misturaram combustível renovável no diesel durante o Carnaval do ano passado, quase ninguém deu importância. Quinze dias depois, Ivete Sangalo lançou a novidade na folia da capital e conseguiu ser o centro dos holofotes. Este ano, não só o trio elétrico dela, mas outros nove farão uso do ecodiesel nos circuitos momescos.

A iniciativa proporciona uma melhoria insignificante em termos de qualidade do ar na avenida, pelo inexpressivo número de adeptos e por a adição do biodiesel ser de apenas 5%. O uso do combustível menos poluente é, sobretudo, uma estratégia de divulgação do Programa Baiano de Biodiesel.

“O Carnaval é uma vitrine excelente para darmos visibilidade ao programa e começar a introduzir o conceito de ecoeficiência”, explica o superintendente de Tecnologia para Competitividade da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, Horacio Hastenreiter Filho.

Os dez veículos que aderiram à proposta representam apenas 14% do total de trios previstos pela Entursa e ainda faltam três deles confirmarem. “Há pouco conhecimento sobre o biodiesel. Muitos donos de veículos ainda acreditam que o biocombustível causa danos ao motor”, observa a coordenadora da Rede Baiana de Biocombustíveis, Rosemira Serpa.

Ela também coordena o núcleo de pesquisa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Lá, funciona a planta piloto que produzirá o biodiesel de mamona para os veículos oficiais da folia. Foram encomendados 550 litros de biodiesel puro para serem misturados na proporção de 5% por litro de diesel.

Até 2% de mistura é liberada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Acima disso, é preciso autorização do órgão. A licença para os trios já foi solicitada, mas o parecer técnico da agência só deve sair amanhã. “Estamos agilizando a autorização. Temos todo o interesse de divulgar o programa de biodiesel”, garante o chefe do escritório regional da ANP, Davidson Magalhães.

O Programa Baiano de Biodiesel integra uma proposta nacional. O governo federal aposta no biocombustível como solução ambiental e, principalmente, como gerador de trabalho e renda para regiões com baixos indicadores sociais, como o semi-árido.

O projeto baiano faz parte de uma parceria entre a Uesc, Universidade Salvador (Unifacs), Prefeitura Municipal de Salvador, governo do Estado e Associação dos Produtores de Música do Estado da Bahia (APA-Bahia).
  
AR LIMPO – Se a experiência dos trios elétricos se propagasse para outros veículos, o meio ambiente respiraria mais aliviado. Os transportes estão na origem de um quarto das emissões de gases causadores do efeito estufa. Calcula-se que os biocombustíveis podem reduzir de 20% a 70% a emissão de gás carbônico (CO2) comparado ao petróleo.

Já existe no País pelo menos um ônibus urbano a biodiesel, no Rio de Janeiro. Ainda é um projeto piloto do programa Riobiodiesel. O ônibus circula em fase de testes na linha que liga a Central do Brasil, no centro, a Copacabana.

O programa ainda tem um ônibus rodoviário e um caminhão circulando com uma mistura de 95% de diesel de petróleo e 5% de biodiesel de soja. Na Bahia, os primeiros veículos a testarem a mistura pertencem à frota da Uesc.

Os combustíveis modificados foram usados nos últimos cinco anos. Atualmente, estão parados. A planta de biodiesel da universidade está passando por modificações para assumir a produção contínua. “Hoje, funciona em batelada (com pausas). Quando passar a ser contínua, nossa produção quase dobrará”, garante Rosemira Serpa.

As pesquisas na universidade baiana começaram em 1998 a partir do dendê, mas os maiores avanços até agora foram conseguidos com soja, mamona, óleos e gorduras residuais. A planta da universidade tem capacidade para gerar até 1.400 litros por dia.

Diesel menos poluente

O diesel S500, desenvolvido pela Petrobras e considerado menos poluente, chegará a todas as regiões metropolitanas ainda este ano. O novo combustível possui 500 partes por milhão (ppm) de enxofre, um teor 75% menor do que o diesel convencional, agredindo menos a atmosfera.

Em maio do ano passado, o novo produto foi lançado para sete regiões urbanas do País, onde são consumidos 70% do diesel metropolitano do País e onde existe maior concentração de gases poluentes: Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Baixada Santista, São José dos Campos, Belo Horizonte e Vale do Aço.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) espera regulamentar as vendas do produto até março e, depois disso, os postos terão 60 dias para se adaptarem às novas regras. Quando o ecocombustível substituir o diesel metropolitano, que tem 2 mil ppm de enxofre, este último passará a ser vendido no interior do Estado, substituindo o diesel anterior, com 3,5 mil ppm de enxofre.

Segundo informações fornecidas pela assessoria de comunicação da estatal, a Petrobras investiu, aproximadamente, US$ 750 milhões para disponibilizar o novo produto. Até 2010, serão aplicados mais cerca de US$ 1,7 bilhão para reduzir o teor de enxofre do diesel em todo o País.