Desmatamento não é negócio para agricultor

28/01/2008

Desmatamento não é negócio para agricultor


 

O desmatamento na Amazônia alcançou as manchetes nesta semana. O maior destaque foi o Mato Grosso com maior área devastada, respondendo por mais de 50% do total do País. A maioria das análises publicadas - oficiais ou não - associaram o avanço do desmate à produção de soja e ao aumento da cotação do grão. A Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja/MT) não contesta os dados, mas se permite algumas considerações.
A primeira é a defesa dos direitos constitucionais do cidadão e do produtor rural. A atual legislação ambiental, de esfera federal, autoriza que, na área da Amazônia Legal, o proprietário rural explore comercialmente até 20% de sua propriedade. O restante é destinado à conservação ambiental.
Quem não cumpre a regra merece ser punido. Somos contrários a qualquer desmate fora do previsto em lei. Mas defendemos o direito da exploração econômica dos percentuais de área autorizados, como lhe assegura a Constituição da República.
Outro ponto a ser citado é que não interessa mais ao produtor de soja mato-grossense a abertura de novas áreas. Para a Aprosoja/MT, a área plantada existente hoje em nosso estado consegue suprir plenamente as demandas de produção. A boa performance produtiva de Mato Grosso não está baseada na relação "aumento de área - aumento de produção". Com tecnologia, pesquisa e gestão empresarial, o produtor de soja consegue produzir cada vez mais na mesma área disponível.
Dados mais recentes da Conab mostram que na safra 2007/08 o aumento de área da soja foi 6,2% em Mato Grosso – de 5,124 milhões de hectares para 5,441 milhões de hectares. Esse relatório informa que esse crescimento teve como foco áreas abertas não utilizadas no ciclo anterior.
MT já plantou 6,1 milhões de ha soja em 2004 e 2005. Temos, portanto, 500 mil ha que poderiam ser plantados sem novos desmatamentos, onde a logística de transporte é melhor do que onde está a floresta.
Existe ainda uma questão de mercado que nos leva a defender a não abertura de novas áreas para o plantio: o aumento da produção derruba os preços – fato que pode diminuir ainda mais a já restrita rentabilidade do produtor do Estado.
A produção da soja, ao menos em Mato Grosso, percorre o caminho da sustentabilidade. Desde a sua criação, a Aprosoja/MT levanta essa bandeira e estuda alternativas para modificar o cenário ambiental. Defendemos a adoção de políticas públicas e mecanismos financeiros que incentivem o produtor rural a ir além daquilo que está previsto na legislação – para fomentar que se preserve e se conserve extensões de terra e de biodiversidade para além dos limites constitucionais.
É o que se chama de desmatamento evitado. O governo brasileiro lançou uma proposta em Bali, durante a 13ª Convenção do Clima, de criação de um fundo internacional de contribuição voluntária, baseado no mercado de carbono. Os interessados fariam contribuições para que os índices de desmatamento diminuam em todo o mundo. A partir desses recursos, poderíamos iniciar um Programa de Pagamento por Desmatamento Evitado, trazendo uma alternativa econômica para as regiões onde a floresta está sob pressão.
Vivemos no meio rural, talvez mais próximos do "meio ambiente" que os moradores das cidades. Dependemos diretamente da natureza, do solo, do clima, da vegetação. Nosso sustento está condicionado ao equilíbrio ambiental. Para nós, o desmatamento não é um bom negócio.
Ricardo Arioli é produtor de soja em Tangará da Serra e Vice-presidente da regional Oeste da Associação de Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja/MT)
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 4)(Ricardo Arioli)