Produtor de algodão evita venda futura de sua safra
A valorização do algodão nos últimos dois anos na Bolsa de Nova York (Nybot), de cerca de 28%, praticamente empatou com a desvalorização do dólar no período (23,5%). O resultado é que pelo segundo ano consecutivo metade da safra brasileira da pluma terá de ser apoiada com recursos do governo federal para fechar no azul. A competição com soja e milho, cujas cotações subiram 107% e 128%, respectivamente, desde o início de 2006, pressionam o produtor de algodão a reduzir área. A tendência é que neste ano eles coloquem um freio na venda antecipada, que geralmente é feita até quatro anos antes da colheita. "O produtor compromete muito e depois fica preso, não pode reduzir a área e cultivar outro produto mais rentável, como está ocorrendo este ano", diz João Jacobsen, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
Normalmente, explica ele, o produtor dessa cultura chega a vender de 60% a 80% da safra antecipadamente. "Diante da baixa remuneração do algodão e dos preços mais atraentes de soja e milho, acredito que, daqui em diante, eles não comercializem mais de 50%", aposta Jacobsen.
Com os preços atuais do algodão na Nybot, o déficit entre o preço pago pelo mercado e o preço mínimo do governo é R$ 10,93 (24,5%) por arroba ao produtor de Mato Grosso, por exemplo. "Assim, precisaremos, novamente, de leilões de equalização", lamenta o dirigente da Abrapa.
A repetição desse cenário negativo deve provocar um recuo da área plantada de algodão no Brasil, segundo a Safras & Mercado. O analista Miguel Biegai aposta em recuo de 15% do plantio na safra 2008/09, que sairia de 1,066 mil hectares para 916 hectares. O analista explica que esse cenário só não se confirma se os preços na Nybot derem um salto, o que ele considera pouco provável para este ano. "Isso porque a relação entre o estoque e o consumo mundial para o algodão nesta safra está em 42,76%. Acredito que esse percentual deveria estar entre 25% para sustentar essa alavancada no preço internacional", analisa Biegai.
Ele explica que esse recuo só não vai ser maior porque 413 mil toneladas de pluma (cerca de 30% da produção nacional) já estão comprometidos para a safra 2008/09, mesmo a dez meses do plantio e 17 meses da colheita.
O recuo da área já está ocorrendo na safrinha de algodão, fortemente impulsionado pelo atraso no plantio da soja precoce em setembro e da colheita em janeiro, agravada pelas chuvas. A estimativa da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão (Ampa) é de que a área de safrinha seja reduzida de 140 mil hectares para 80 mil hectares. "Além de oferecer menor risco, a safrinha com milho está mais compensadora", diz João Luís Ribas Pessa, da Ampa.
Uma menor safrinha de algodão em Mato Grosso - único estado a fazer a segunda safra dessa cultura - pode resultar em oferta mais apertada de pluma no mercado interno ao final deste ano, segundo Biegai. "Da produção total de 1,44 mil toneladas de pluma, entre 610 mil e 620 toneladas já foram negociadas para exportação, sobrando outros 820 mil toneladas para o mercado interno que, normalmente, consome entre 830 mil e 850 mil toneladas anuais".
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 8)(Fabiana Batista)