UE terá acesso a todas as fazendas da lista inicial

13/02/2008

UE terá acesso a todas as fazendas da lista inicial

 

 

Os europeus vão ter acesso aos dados de todas as quase 2,7 mil propriedades que haviam sido auditadas pelos governos estaduais e federal até o final de janeiro. No entanto, nem todas as propriedades têm informações completas. Segundo levantamento da Gazeta Mercantil, os seis estados habilitados à exportar para a União Européia encaminharam até às 18h de segunda-feira (prazo dado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), documentos referentes a 1.021 propriedades. Ou seja, o restante ainda estaria com algumas "inconformidades". Na semana passada, o governo falava em cerca de 600 fazendas aptas.
"A lista que os estados produziram foi confrontada com a base de dados do Sisbov e, isso, disponibilizado eletronicamente para a União Européia. O que eles acessarem é que vai valer. O governo não tem como selecionar. Eles que digam qual propriedade querem", disse o secretário de Defesa Agropecuária do ministério, Inácio Kroetz, pouco antes de embarcar para Bruxelas, onde terá reuniões com os europeus amanhã e na sexta-feira. Ele admitiu que o número de 300 propriedades exigido pelos europeus nunca existiu e, sim, o fato de eles acreditarem que o Brasil só teria condições de auditar 3% do total de propriedades inscritas no Sisbov. "Como nossa lista inicial foi superior a isso, eles não acreditaram. Agora, fizemos um relatório completo sobre como chegamos a este número e eles têm acesso a todos estes documentos. Queremos dar credibilidade ao nosso levantamento", afirmou.
A mudança na lista original gerou desconfianças entre analistas de mercado, produtores e os próprios estados que auditaram. Dois deles, Rio Grande do Sul e Goiás, não aceitaram que o governo federal pedisse que "checassem" as informações. "Tivemos pouco tempo para auditar e eles queriam que refizéssemos apenas por gabinete. É incabido", disse uma fonte de um dos estados. As secretarias estaduais de agricultura fizeram os levantamentos nas propriedades entre o início de janeiro e o dia 26 daquele mês. Na semana passada, após reunião com os secretários, foram pedidas novas informações. No Rio Grande do Sul e em Goiás a checagem foi feita pelas superintendências estaduais.
"A história da lista foi uma grande irresponsabilidade, fez com que o País perdesse a credibilidade", avalia José Vicente Ferraz, diretor da AgraFNP. Segundo ele, pode ocorrer de os europeus escolherem fazendas com problemas na auditoria que será feita a partir do dia 25. Ele acredita, no entanto, que o embargo cai à medida que o preço da carne subir na Europa. O presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, está inconformado com a lista. "A CNA não aprova de forma alguma. É um absurdo o Brasil se sujeitar a uma exigência dessas da União Européia. Não é uma posição do maior exportador de carne do mundo", esbraveja.
A ocorrência de um caso de estomatite vesicular em Mato Grosso pode ser mais um capítulo da "novela União Européia". Alguns analistas de mercado acreditam que, com a enfermidade, os europeus poderiam ter "uma desculpa sanitária" para não comprar do Brasil. O ministério comunicou à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) e suspendeu, temporariamente, a certificação de carne bovina proveniente de animais de Mato Grosso destinados ao mercado russo, conforme acordo sanitário entre os dois países.
Transparência
"Se eles quiserem usar a estomatite, vale. Existe um componente político, de protecionismo, e estamos dando sopa para o azar", afirma Ferraz. Isso porque a doença pode ser confundida com a febre aftosa - mas os exames laboratoriais deram negativo para esta enfermidade.
Para o secretário-executivo da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), Antônio Carmadelli, a notificação brasileira mostra transparência. Os principais frigoríficos brasileiros se pronunciaram sobre o fato. Em nota, a JBS S.A. disse que a estratégia de ter fábricas em diversos estados faz com que sua "produção e vendas não sofram interrupções", pois podem ser redirecionadas para outras plantas. O Independência, também por meio de comunicado, afirmou que as vendas para aquele país não sofrerão alteração, pois atualmente os embarques saem das plantas de Rolim de Moura (RO) e Senador Canedo (GO) e não das unidades de Mato Grosso.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 5)(Neila Baldi)