Incertezas tumultuam o mercado de trigo
Mesmo com a eliminação da Tarifa Externa Comum (TEC) para a importação de cerca 1 milhão de toneladas de trigo de fora do Mercosul, predomina o clima de incerteza sobre uma possível falta do cereal, o que poderia causar uma alta nos preços dos seus derivados. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a expectativa é de que o país colha uma safra de 3,8 milhões de toneladas a partir de agosto, necessitando ainda de cerca de 7 milhões de toneladas para suprir a demanda interna até lá.
De acordo com especialistas, o grande problema está em encontrar trigo da classe pão (para a fabricação de pães e massas), que responde por mais de 50% da demanda interna, segundo informações da Embraparigo.
No Paraná, onde quase 100% da produção é desse tipo de grão, a tonelada é cotada em média a R$ 700,00 – quando no início de 2007 era de R$ 400,00, de acordo com a Safras & Merrcado. Mas cerca de 80% da safra de 1,9 milhão de toneladas já está comercializada, sobrando o Estado do Rio Grande do Sul como opção para a compra do cereal.
"O trigo disponível no Rio Grande do Sul é de baixa qualidade e inadequado para suprir essa demanda interna que é para panificação", explica Lowrence Pih, presidente do grupo Moinho Pacífico. Para ele, os registros para exportação na Argentina de mais de 1 milhão de toneladas, liberados no início desse ano, não devem chegar totalmente ao Brasil, o que pode causar falta do cereal a partir de julho. "Mesmo com isenção da TEC para a importação de 1 milhão de toneladas é possível que falte o grão", arremata Pih.
Entretanto, segundo Gilberto Cunha, chefe geral da Embraparigo, 70% do grão produzido no RS é da classe pão, restando 30% divididos entre "soft" (para biscoito) e "outros" (para ração). "O trigo gaúcho ficou marcado até o início dos anos 90 como sendo de baixa qualidade, mas com a utilização de tecnologia de ponta no desenvolvimento das sementes isso mudou hoje", afirma. Segundo ele, a produção desse ano foi muito prejudicada com a chuva durante a colheita, mas mesmo assim o Estado conseguiu exportar cerca de 200 mil toneladas de trigo do tipo soft para o norte da África em 2007, que para ele não pode ser considerado de baixa qualidade só porque não atende ao padrão de panificação.
Já para Élcio Bento, analista da Safras & Mercado, os fatores que impedem que o trigo do Rio Grande do Sul seja totalmente comercializado são relativos ao preço que vem sendo praticado, a cor da farinha que é muito escura para a fabricação de pães e massas e a chegada das 3 milhões de toneladas da Argentina – "que deve extrapolar o prazo de três meses concedidos no ato da liberação dos registros, em novembro".
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 6)(Roberto Tenório)