Farelo e óleo ganham força, mas foco do país segue na soja em grão
Em 2007, depois de anos de marasmo, as esmagadoras de soja voltaram a anunciar, "em bloco", novos projetos de fábricas de processamento no país, que nos últimos tempos perdeu muito espaço nesta frente para a Argentina sobretudo em decorrência do desestímulo tributário originado pela Lei Kandir, de 1996.
Tal desestímulo, provocado pela cobrança de ICMS no transporte interestadual do grão destinado à produção de farelo e óleo, perdura, mas a retomada dos aportes em unidades esmagadoras reflete a nova realidade de um mercado superaquecido e com preços internacionais e domésticos em elevado patamar.
Ainda que as cotações da soja em grão tenham alcançado máximas históricas na bolsa de Chicago e se encontrem atualmente nesse patamar - o que fortalece as exportações brasileiras da matéria-prima -, o óleo subiu ainda mais com as boas perspectivas para o mercado global de biocombustíveis, empurrado também no Brasil pela estréia da mistura compulsória de 2% de biodiesel no diesel.
Mas, como o esmagamento do grão resulta em proporção desigual de seus principais derivados (20% de óleo e 80% de farelo, a grosso modo), para justificar o processamento é preciso demanda para o farelo, e internamente esse apetite voltou a aumentar com as boas vendas de carnes, destinadas ao revigorado mercado doméstico e para embarques.
Não por acaso, observa Fabio Trigueirinho, secretário-geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o atual movimento de expansão do processamento de soja está no Centro-Oeste . "Está ocorrendo uma migração da produção de frango e, principalmente, suínos para a região. Parte da idéia da construção das unidades no Centro-Oeste tem a ver com a produção de carnes, já que 80% do que se obtém da soja é farelo", diz. "É um modelo novo de agregação de valor com as carnes".
Das três novas novas fábricas projetadas, a do Grupo André
A gigante americana
Apesar de representarem uma retomada de investimentos, o perfil das três unidades demonstra que a perda de espaço do Brasil nas exportações globais de farelo e óleo não será revertida, especialmente se for levado em consideração que entre os últimos projetos inaugurados na Argentina ou na China, incluindo os da Cargill e Bunge, estão complexos gigantes com capacidade para esmagar 12 mil toneladas de soja/dia ou mais.
"A Argentina mantém um diferencial tributário que nós não temos. É preciso o governo achar a questão importante para que esse cenário mude", diz um executivo de uma das várias indústrias do segmento que não têm investimentos em novas unidades em curso. "Além do mais, a Argentina tem uma taxa de câmbio bem mais favorável para as exportações do que a nossa", arremata.
Na comparação com a Argentina, observa Trigueirinho, da Abiove, a problemática logística brasileira é outro entrave. "A Argentina ainda tem um grande diferencial competitivo, porque as plantas em operação no país ficam perto do porto", afirma.
Na safra 1995/96, conforme estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os americanos lideraram as exportações mundiais de soja em grão, com fatia de 72,5% do total, mas o Brasil liderava os embarques globais de farelo e óleo, com participações de 35,4% e 30,2%, respectivamente. Na atual temporada (2007/08), o Brasil deve confirmar a ponta nos embarques de grão (39,2% do total) e perder para seus principais concorrentes nos derivados.
É verdade que, em termos absolutos, as exportações brasileiras do chamado complexo soja (grão, farelo e óleo) não pararam de crescer mesmo com a mudança consolidada a partir da Lei Kandir. Em 2008, prevê a Abiove, a receita total deverá alcançar US$ 16,5 bilhões, ante os US$ 4,5 bilhões de 1996. Mas, no mercado, não faltam especialistas que afirmem que, com o valor agregado dos derivados, poderia ser muito melhor.
Apenas por curiosidade, em 1996 o volume de farelo de soja exportado pelo Brasil foi três vezes superior ao de soja