"Branquinha" da Chapada ganha o mercado europeu
Foi como uma fase de envelhecimento necessário a algumas boas bebidas. Nos últimos 20 anos, um grupo de produtores, unidos em duas entidades associativas, tornaram a Abaíra uma das melhores cachaças do Brasil e, agora, esta famosa “branquinha” da Chapada Diamantina entra no restrito grupo das aguardentes brasileiras exportadas para a Europa.
O primeiro carregamento, de 20.160 garrafas de 700 ml, já foi embarcado para o Velho Mundo.
Inicialmente, a Abaíra vai ser comercializada, por uma rede de supermercados, em lojas situadas na Itália, Áustria, Alemanha e Suíça. Daqui a 60 dias, seguirá o segundo lote.
Os últimos preparativos para o primeiro carregamento fizeram com que alguns produtores organizassem um mutirão. Foram eles mesmos que armaram as caixas e embalaram as garrafas.
“É uma realidade, está tudo amarradinho no contrato”, comemora o presidente da Associação de Produtores de Aguardente de Qualidade da Microrregião de Abaíra (Apama), o agricultor familiar José Silva Souza.
E ele fala com uma expressão como quem ainda não estivesse acreditando que a “filha” de uma pequena cidade da Bahia “está ganhando o mundo”.
CONTRATO – A Apama e a Cooperativa dos Produtores de Derivados de Cana-de-Açúcar da Microrregião de Abaíra (Coopama) assinaram um contrato com a exportadora paulista Comudi Internacional para exportar cerca de um milhão de garrafas, até 2010, para a Europa.
Depois, a meta é manter a exportação de 82 mil garrafas por mês. Além de Itália, Alemanha, Áustria e Suíça, Espanha, Inglaterra, Suécia, Noruega, Bélgica e Rússia também estão nos planos da Comudi Internacional, o mercado da Abaíra na Europa.
“O contrato prevê também que haja eventos promocionais da Abaíra na Europa, com a participação da Apama e da Coopama, com o objetivo de consolidar a nossa marca no exterior”, salienta José Silva Souza. Mas o consumidor brasileiro pode ficar tranqüilo. Os dirigentes da Apama e da Coopama garantem que não vai faltar nem um gole de Abaíra no mercado interno.
E José Silva Souza garante que a cachaça comercializada aqui será exatamente a mesma que vai para a Europa. “Nos últimos três anos, a nossa produção cresceu de 25 mil para 75 mil litros, anualmente. Nossa meta, a partir de 2010, é alcançar a marca de 300 mil garrafas anualmente”, diz o presidente da Coopama, Evaristo Carneiro de Souza.
QUALIDADE – A produção de uma cachaça com critérios de qualidade em Abaíra começou há 20 anos. Com recursos da CAR, EBDA, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Abaíra e um mutirão de produtores familiares, foi instalado o primeiro engenho do município, da Associação Comunitária de São José.
O presidente da entidade, o produtor Dermerval Espírito Santo, comemora a vitória da exportação para a Europa com um grande sorriso: “A gente chega onde quiser se trabalhar com fé”.
Dermerval Espírito Santo está, agora, empenhado em ampliar e melhorar as instalações.
OTIMISMO – O produtor de canade-açúcar João Prado Filho, um dos fundadores da Coopama, também está muito otimista com “um grande futuro” para os negócios com uma aguardente.
Só o fato de ter se engajado na cooperativa já traz uma grande vantagem para João, pois, atualmente, Prado Filho é remunerado com o correspondente a R$ 1,70 por litro produzido de cachaça, enquanto o produtor que vende ao atravessador recebe de R$ 0,70 a R$ 0,80.
“Eu e mais cinco irmãos plantamos 10 hectares de cana. Temos a orientação de um agrônomo, análise de solo, adubação certa. De 1997 para cá, triplicamos a área plantada, aperfeiçoando a qualidade”, garante.
“Além disso, há uma curiosidade: o cultivo da cana-de-açúcar aqui é secular e nós encontramos aquela que deve ser a primeira variedade da microrregião, que é a java, trazida da Ilha de Java para o Brasil, na Ásia, por Martin Afonso de Souza, em 1630”, destaca.