Dúvidas sobre futuro do açúcar faz mercado pôr pé no freio
A incerteza sobre o rumo dos preços do açúcar no mercado internacional está deixando o mercado apreensivo e em compasso de espera. Produtores de açúcar estão com dificuldades em firmar contratos de venda de exportação para a safra 2008/09 no Centro-Sul, situação motivada pela falta de interesse das tradings em abrir novas posições na Bolsa de Nova York (Nybot) diante de tanta volatilidade. Alguns negócios até estão sendo feitos, mas com deságio de preço para a usina. "Ninguém quer aumentar posição em bolsa. O receio é de que o mercado suba mais e isso gere mais custo de ajuste diário", diz um trader de açúcar que preferiu não se identificar.
José Carlos Toledo, presidente da União das Destilarias do Oeste Paulista (Udop) explica que as tradings estão mais seletivas neste momento. "Elas estão fazendo negócios mais de longo prazo e com maiores volumes", diz Toledo. Ele acrescenta ainda que alguns contratos estão sendo fechado com deságio para as usinas. "Se na hora em que você quer fechar, a trading não quer, acaba-se fazendo desconto. Mas mesmo com esse deságio, ainda vale a pena fechar, diante dessa instabilidade", completa.
Vítor Piuma, analista da Theca Corretora, diz que as usinas que atuam diretamente no mercado futuro também estão procurando retardar fixações, apesar da alta das cotações do açúcar no mercado internacional. "Estão todos esperando preços mais altos", acrescenta Piuma. Apesar de os estoques mundiais de açúcar ainda estarem elevados, o mercado está sendo sustentado pelo movimento dos fundos que continuam com forte posição comprada na Nybot. Há ainda, segundo Piuma, a safra da Índia, que está sendo frustrada.
As usinas dispostas a firmar contratos de longo prazo parecem não ter problemas para fixar vendas externas com tradings. Fernando Perri, superintendente da Usina Campestre, localizada em Penápolis (SP), diz que fechou negócio recentemente, mas para um período de três anos, em vez de um ano, como era mais comum. A oferta de açúcar desse contrato da Campestre, segundo Perri, advém da decisão de aumentar o mix açucareiro para a próxima safra. "Fizemos 23% de açúcar na 2007/08. Nesta safra vamos fazer 45% e já negociamos esse volume adicional", afirma Perri.
Por isso, ele também acredita que exista no mercado neste momento uma maior oferta futura de açúcar, resultante do aumento do mix açucareiro da maior parte das usinas que têm essa opção. "Talvez por isso algumas usinas estejam com dificuldade de fixar nas tradings, pois estas podem já ter fechado o volume planejado".
Mário Silveira, analista de gerenciamento de risco da FCStone, até acredita que pode estar ocorrendo uma oferta futura maior de açúcar, devido a alta de preços. Mas, para ele, a situação atual de resistência de tradings em fechar novos negócios está mais fortemente ligada ao receio de custos maiores com ajuste de margem.
Até agora, estima-se que 60% da próxima safra de açúcar tenha sido fixada até o início de janeiro entre 10 e 12 centavos de dólar a libra-peso. Com a cotação atual acima de 14 centavos, estima-se que tenha saído do caixa das usinas e das tradings em torno de US$ 750 milhões.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 3)(Fabiana Batista)