Fortes mulheres do campo
Acordar antes de o sol raiar, todos os dias, e enfrentar uma rotina pesada: descascar coco, raspar mandioca, colher e plantar verduras na horta, vender os produtos na feira, lavar roupa, preparar o almoço, arrumar a casa e cuidar dos filhos.
Uma vida no campo não é tarefa fácil, principalmente para as mulheres. Mãos calejadas, rostos marcados pelo tempo e pela dureza do trabalho de sol a sol não tiram dessas trabalhadoras a vontade de freqüentar a escola, de participar de projetos sociais, de chegar, quem sabe, um dia, à faculdade. Muito menos a vontade de se sentirem belas. “Não é porque trabalho com a terra que devo estar relaxada. Acho que todas as pessoas, principalmente as mulheres, têm que se cuidar, pois isso é sinal de amor próprio”, ressalta a produtora rural Marlúcia Silva Souza, de Barreiras, oeste do Estado. As repórteres Miriam Hermes, Cristina Laura, Maria Eduarda Toralles, Ana Cristina Oliveira, Cristina Santos Pita, Alean Rodrigues e Danniela Silva revelam que, assim como a terra necessita de mãos fortes para florescer e dar bons frutos, as histórias de vida também frutificam no campo e são o melhor que aprendemos de um povo.
1 - A produtora rural mantém a jovialidade e energia da juventude. Acorda cedo, cuida da casa, da horta orgânica, além de trabalhar dois dias no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barreiras, onde é secretária de política social e, aos sábados, comercializar seus produtos na feira livre. Com esta rotina, ela ainda tem tempo para a vaidade feminina, cuidando semanalmente dos cabelos e das unhas, que conserva compridas e pintadas. “Não é porque trabalho com a terra que devo estar relaxada. Acho que todas as pessoas, principalmente as mulheres, têm que se cuidar, pois isso é sinal de amor próprio”, diz, exibindo orgulhosamente as unhas. Para ela, a mulher no campo é muito sofrida, mas reconhece que, em muitos lugares, as condições já são mais favoráveis. “O conforto que elas têm na cidade, temos na roça, mas no campo a vida é mais saudável”
2 - Ela era apenas mais uma dona-de-casa de Umburanas, melancólica por não ver perspectivas de vida melhor na terra que escolheu para viver. As irmãs já tinham tomado o rumo da cidade grande e acabaram mudando de Estado. Vanúzia resistia, não desejava abandonar o semiaacute;rido. Certo dia, uma conhecida comentou sobre um tal projeto de permacultura, que estava devolvendo o verde para terras cinzentas e, aparentemente, sem vida. “Descobri que a terra precisa se alimentar, assim como o ser humano”, conta Vanúzia, que levou a novidade para dentro de casa.
O marido e o pai desdenharam. Não adiantou. Determinada, fez os cursos promovidos pelo Instituto de Permacultura da Bahia, e o único pedido que fez ao pai é que lhe cedesse uma pequena área de suas terras.
“Você tem de cuidar da terra como um filho, pensando no futuro dela. O que tenho aprendido dinheiro não compra”
3 - É a partir das 5 horas da manhã que começa a movimentação na horta orgânica comunitária do bairro João Paulo II, em Juazeiro (500 km de Salvador). Nos três hectares de terra, 107 famílias vivem do trabalho da agricultura em área urbana, sendo que a maioria é mulher. O sol nem bem surge no céu e as agricultoras levantam para fazer o café para maridos e filhos que saem para trabalhar e logo depois seguem para a horta. Maria Ozita costuma preparar o café num fogão improvisado. Ela, que cresceu junto com os sete irmãos dentro da roça, criou também os cinco filhos no meio do cultivo de hortaliças. “Hoje eles têm seus empregos, mas quando a coisa aperta por aqui, eles me dão uma mão”, afirma. “Somos mulheres e trabalhamos às vezes até mais que os homens”, assegura, com firmeza. Ela garante que o trabalho sustenta não apenas as finanças das casas, mas ensina e dá esperança
4 - A agricultora de Feira de Santana se divide entre ser dona-de-casa, diretora sindical e trabalhar na lavoura. E ainda tem tempo de cuidar de problemas dos outros: três vezes na semana vai para a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) para atender os agricultores que estão à procura de ajuda. Vaidosa, diz que não sai sem maquiagem e toda semana vai ao salão fazer unha e cabelo.
Cuida da pele e não abre mão de um hidratante e protetor solar. Na opinião dela, a mulher tem que ser forte e trabalhadora, mas sem perder a beleza. “As pessoas acham que para trabalhar na roça não se deve cuidar de si.
Podemos até ter as mãos calejadas, mas não se pode perder a beleza que só a mulher possui”, destaca. No mês de junho, faz e vende licores. Com a venda, consegue aumentar a renda da família, que é de R$ 300 por mês. “Mesmo com dificuldade na minha vida, consigo ser feliz”
5 - No sítio Boa Vista, zona rural de Santo Antônio de Jesus (a 185 km de Salvador), a beijuzeira se desdobra para cumprir o papel de mulher, mãe, dona-de-casa e, ao mesmo tempo, dividir com o companheiro a função de chefe de família.
Acorda às 4 horas da manhã para a lida e ainda cuida dos filhos e dos afazeres da casa. O sonho dela é ser agrônoma.
“Um dia eu consigo”. No sítio, muitas vezes acaba desistindo das horas dedicadas a cuidar de si mesma. “Se eu for a uma festa ou no centro da cidade, tenho que acordar duas horas mais cedo ou então largar o beiju para cuidar do cabelo e das unhas. Não pinto as unhas porque o beiju tira. Quando sobra tempo, passo um creme nas mãos e nos pés, mas não é todo dia”, diz. O que ganha dá para sustentar a casa, pelo menos para garantir a alimentação da família. “Se eu tirar para comprar cremes e maquiagem, vai faltar feijão, arroz e carne. Então largo a vaidade para não diminuir a comida”
6 - De domingo a domingo ela está na lida, plantando mandioca, beneficiando o produto para fazer farinha. Quando chega em casa, cozinha, costura de ganho e ainda toma conta de dois netos. Esta é a dura rotina da trabalhadora rural de Buerarema, em Itabuna.
E gostaria que seu dia tivesse mais de 24 horas para dar conta dos afazeres. Quando pega muita costura, vai até as 2 horas da manhã e, às 6 horas, já está de pé.
“Faço calças, blazers e até vestido de noiva. Sou uma modista fashion”, brinca. Marlene diz que vida digna só se tem com trabalho, e ela faz isso desde os 10 anos, na roça, onde morou até casar. “Não sobra tempo para mim. De vez em quando eu passo uma camadinha de esmalte nas unhas, para enganar”. Ela só não abre mão de estar com o cabelo limpo: não dispensa uma touca quando está na roça e na casa de farinha
7 - Uma vida no campo não foi o bastante para a trabalhadora rural, moradora do município de Itagimirim, a 600 km de Salvador. Depois de criar os oito filhos, dona Maria ainda continua trabalhando em sua rocinha e cuidando de suas galinhas e marrecos, fazendo questão de levantar, todas as manhãs, às 5 horas. “Se ficar parada adoeço”, diz. Há cerca de dois anos, foi alfabetizada pela filha mais velha, Selma Rodrigues Rosa dos Santos, coordenadora do projeto Itagimirim Educar, trabalho que oferece aulas de alfabetização para adultos e idosos, principalmente da zona rural do município. “Meu pai não me deixava estudar. Uma vez, fugi de casa para morar com minha tia e estudar. Ele veio me buscar na cidade debaixo de couro”, conta. Hoje, a trabalhadora rural sabe escrever seu nome, discar o número de telefones e, segundo as filhas, ler bilhetes.