Baixo sul diversifica produção com o açaí

10/03/2008

Baixo sul diversifica produção com o açaí

 

Açaí, a “fruta que chora”, segundo definição do tupi-guarani, sempre esteve na moda. Na Bahia, a fruta é comercializada apenas no baixo sul da Bahia, na região de Valença, Camamu e Ituberá, e em Ilhéus, no sul do Estado.
Segundo dados da Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri), trata-se de um cultivo para subsistência e comércio local.
Agrônomos da região afirmam que o açaí ainda não é uma cultura assistida. Além disso, a falta de linhas de crédito dificulta a expansão do cultivo no Estado.
A produção de açaí é de origem extrativa, o que obriga naturalmente a uma exploração racional, capaz de gerar rendimento sustentável, ou seja, sem prejuízo ambiental. O cultivo é feito, em sua maioria, por pequenos agricultores familiares, como alternativa de renda.
Os pequenos agricultores do baixo sul, por ser uma região que chove muito, aproveitam as áreas alagadiças para diversificar as culturas plantando açaí. Assim, sem querer eles ajudam a equilibrar o meio ambiente, pois aproveitam a água, que deixa de evaporar, já que a espécie cresce nas áreas mais úmidas da mata em forma de touceiras.

ARTESANAL – O processo de lavagem da fruta é artesanal. No sítio de Adão Souza, o fruto passa por três lavagens e, em seguida, vai para a despolpadeira. Um balde com 2,5 kg da frutinha dá 1 kg de polpa de 100 g, o que corresponde, diz o agricultor, a dez sacos de polpa de açaí. É um calculo feito na prática da lida diária, sem assistência sobre a cultura.
Adão vendeu, mês passado, 300 kg de açaí a R$ 4,50 o quilo.
"Tenho gastos com o transporte, que é de ônibus ou caminhão, e ainda com as embalagens", disse. Mesmo assim, o pequeno agricultor, que aposta no açaí, já faturou entre R$ 1.500 a R$ 2 mil. "Uma fonte de renda gerada por uma cultura que há cinco anos não era aproveitada", completa a agrônoma Ana Cristina Santos, da EBDA.
Laércio Ramos Viva, 73, cultiva e abastece o mercado e as feiras livres da região com hortaliças.
Na Fazenda Guaraci, começou a cultivar o açaí com 150 mudas aproveitando a área que é bem diversificada. "Há cinco anos o cultivo do açaí está em expansão.
Já existia, mas não era explorado. Vou fazer mudas e vender", espera o agricultor.

MERCADO – Comercialmente, o açaí rende dois produtos: o palmito, extraído do caule, e o fruto escuro, usado na fabricação de doces, licores, sucos e do creme de açaí, um alimento energético e cada vez mais popular em todo o País. No baixo sul sua comercialização é o fruto ou em forma de polpa, para os produtores com acesso às máquinas chamadas “despolpadeiras”.
No Sítio Feito Por Mim, distrito de Arará, a 6 km de Camamu, o pequeno produtor Adão Souza, 50, cultiva açaí há dez anos nos dez hectares de área que possui, aproveitando o terreno úmido da propriedade, alternando com cacau e especiarias, como cravo, pimenta-do-reino e baunilha, além do palmito pupunha e cupuaçu.
O açaí resiste a terrenos alagadiços e os cachos parecem jabuticaba.
“Não é uma cultura difícil de plantar, mas de se colher, porque a árvore é muito alta, forma cachos. É colhido subindo-se na palmeira e, com um podão, a gente balança os frutos que caem sobre uma tela”, conta Souza.
Do caroço, Souza vende a muda por R$ 1 e a polpa, que é comercializada a R$ 5 o quilo. Para cada 15 kg de frutos, obtém-se de seis a oito litros de polpa. A medida padrão de comercialização é a lata de 14,2 quilos.

De acordo com a agrônoma Ana Cristina Santos, chefe do escritório da EBDA de Camamu, cada palmeira produz, anualmente, até oito cachos, mas o mais comum é produzir de três a quatro cachos sempre em estágio diferente, desde a inflorescência até a maturação.
“Cada cacho é colhido em épocas diferentes, podendo haver frutificação durante o ano todo”, salientou. Uma só semente do palmito pode produzir touceiras de até 25 pés, entre adultas, jovens e brotações.

PROCESSO – Para ser consumido, o açaí deve ser despolpado em máquina própria ou amassaPequenos agricultores do sul do Estado, como o produtor Adão Souza, apostam na diversificação: renda do manualmente (depois de ficar de molho na água), para que a polpa se solte, e misturada com água, transforma-se em um suco grosso, também conhecido como vinho do açaí. Além de consumido, tudo é aproveitado do açaí, não só a polpa. As sementes se transformam em biojóias e a inflorescência em decoração, descansador de panelas, mandala e trançados.
O açaizeiro oferece aproveitamento integral. Além do artesanato, o estipe do açaí é usado em construções rústicas. As folhas servem para cobertura e quando ainda novas são usadas como ração animal, e velhas são trituradas para fabricação de papel. Já o caroço, depois de decomposto, é um excelente adubo orgânico.

ENERGÉTICO – A frutinha arredondada e roxa agrada o paladar de muita gente. Nutritivo e delicioso, caiu no gosto principalmente dos jovens, que vêem no açaí um ótimo repositor de energia.
As misturas prediletas são açaí com banana e granola.Mas tem também o básico, composto de açaí, xarope de guaraná e granola.
A febre por açaí se justifica: como fonte de energia, é usado como repositor energético.
Segundo a nutricionista Suzana Almeida, o açaí é rico em lipídios, fósforo, cálcio, potássio e vitamina E, e ajuda a combater os radicais livres. A alta concentração de fibras melhora as funções intestinais. A presença de vitamina e B2 e C protege os olhos e estimula memória.
“É indicado no tratamento de anemias e fortalecimento muscular.
O açaí não pode ser conservado in natura. A polpa congelada e o produto em pó permitem tornar o açaí disponível no mercado durante o ano todo”, diz.
A nutricionista faz outro alerta: o alto teor calórico, evidentemente desaconselhável a pacientes com debilidades gastrointestinais.
Toda pessoa que estiver com uma dieta de baixos teores de gordura deve passar longe do açaí. O elevado teor de lipídios pode, inclusive, provocar reações de vômitos e náuseas em quem segue os rigores de uma alimentação rica em carboidratos e pobre em gorduras.
“Para estômagos sensíveis, quanto mais ralo o açaí, melhor. Pode-se diluí-lo em suco de laranja ou mesmo água. E excluir a granola, outra grande concentração de gorduras. Por ser muito gorduroso e de difícil digestão”, orienta. O açaí tem 13% de proteína, acima do leite (3,5%) e até do ovo (12,49%).