Café: floresce potencial

17/03/2008

Café: floresce potencial

 

Tempo de boas floradas para a economia do café. A combinação de fatores positivos projetam um ano de crescimento do consumo interno, aumento da produção e da exportação. Os preços estão em alta no mercado internacional, os estoques estão baixos e não há notícia de supersafras nos países concorrentes do Brasil.

A primeira estimativa da Secretaria da Agricultura da Bahia para a safra de 2008 é de 2.180 sacas, dentro da faixa prevista pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima uma produção situada entre 2.086 e 2.221 sacas de café beneficiado. O resultado representa um crescimento entre 13,9% e 21,3% sobre a safra anterior. A produção de café arábica, 75,3% do total, é estimada entre 1.573 e 1.670 sacas, e a de robusta, 24,7%, tem produção prevista entre 513 e 551 mil sacas.

Tudo estaria perfeito não fosse a desvalorização cambial, “erva daninha” da economia brasileira e que tem tirado o sono dos cafeicultores. O dólar ladeira abaixo leva com ele o sonho de “ganhar uma loteria esportiva” este ano, diz, à moda antiga, o produtor Antônio Luiz Figueira, de Bonito, na Chapada Diamantina, que vê no aumento de produtividade a única saída para aproveitar o bom momento que vive a cafeicultura.

“A planta devolve o que você dá para ela. Busquei então quem entende, apliquei tecnologia e em dez anos consegui tirar o dobro da mesma área plantada”, diz o produtor, que está otimista, mas avisa: “Quem não usar tecnologia será expulso do mercado”.

PARADOXO – Para Humberto Souza Cruz, presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), a cafeicultura vive um paradoxo. O aquecimento dos preços dos produtos agrícolas no mundo, puxado pelo investimento pesado dos Estados Unidos na produção do milho para etanol e pelo crescimento da China, fez aumentar o preço dos insumos importados, que, mesmo com o dólar em baixa, dispararam de preço. “A tonelada de adubo triplicou desde 1999, quando o preço da saca estava no patamar de hoje, de US$ 190”, compara.

Do lado das boas notícias para toda a cadeia de produção do café, o crescimento do consumo interno tem surpreendido.

Levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) revela que, no período de novembro de 2006 a outubro de 2007, o consumo interno chegou a 17,1 milhões de sacas, um crescimento de 4,74% em relação ao mesmo período anterior.

Desde 2003, o incremento acumulado é de 24,8%. “Este crescimento é resultado do aumento do poder de compra das classes D e E e de mudanças de hábitos de consumo fora do lar”, avalia Nathan Herszkowicz, da Abic.

QUALIDADE – Para Silvio Leite, presidente da Associação de Produtores de Café da Bahia (Assocafé), o crescimento da cafeicultura da Bahia deve ter foco no café de qualidade, nos cafés especiais certificados, aqueles que podem ser rastreados e que atendem a um mercado consumidor cada vez mais exigente.

“Fora o problema cambial, toda a cadeia do café vive um momento muito positivo. Os governos federal e estadual devem ficar atentos, principalmente no peso dos impostos, para que o País não perca a chance de ocupar espaço neste momento de crescimento do mercado em todo o mundo”, avalia Leite.

Mario Malta, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), também bate na tecla do momento de expansão do consumo mundial do café. “Estudos comprovam crescimento do consumo fora de casa em todo o mundo, principalmente na Ásia, entre a população mais jovem”, diz.

A semelhança do modo de preparo do café solúvel com o chá, tradicional nesses países, tem facilitado a mudança de hábito, avalia Malta, que destaca também o crescimento do consumo entre jovens, principalmente nas misturas do café com chocolate e cremes.

INVESTIMENTOS – O governo do Estado também aposta na ampliação da produção e assinou, no início deste mês, durante o Simpósio Nacional do Agronegócio Café, em Salvador, protocolo que destina R$ 75 milhões para o setor.

Os investimentos deverão ser aplicados na renovação de 30 mil hectares de café que já têm mais de 30 anos e na ampliação da área plantada de 136 mil para 150 mil hectares.

Segundo Eujácio Simões, superintendente de Política do Agronegócio da Secretaria da Agricultura, a intenção do Estado é de, nos próximos cinco anos, incrementar a atual produção em que vem nos últimos seis anos se mantido (no patamar de 2 milhões de sacas) em mais 1,5 milhão de sacas.
“Estamos confiantes no aumento da demanda não só do mercado externo, como também no interno, principalmente o Nordeste”, diz Simões, que pretende alcançar o lugar de terceiro produtor do País, devido ao avanço da safra de cana em São Paulo.

A produção hoje é liderada por Minas (44,8%), seguida pelo Espírito Santo, com 27%.
Num segundo patamar, vem São Paulo, com 8%; e Bahia, com 6,3%, segundo a Conab.
De olho no mercado do Nordeste, a Seagri oferece os incentivos do Programa Desenvolve, baseado na redução de ICMS, para atrair uma planta de café solúvel para a região sudoeste e de uma torrefação para Vitória da Conquista.