Risco do crédito impede renegociação

24/03/2008

Risco do crédito impede renegociação

 

O refinanciamento das dívidas dos produtores rurais com as indústrias de insumos pode não sair do papel, sobretudo para os agricultores que apresentam maior risco de crédito. De acordo com levantamento do Banco do Brasil (BB), agente financeiro responsável pela operação, 9 mil produtores rurais estão aptos a contratar a linha com aval do Fundo de Recebíveis do Agronegócio (FRA). Destes, 5.595 estão classificados como de risco alto e dependem da contratação de operações de grupos de menor risco (3.405 produtores) para serem enquadrados.
"Até agora, apenas três produtores apresentaram a documentação. Tratam-se de documentos de rotina e um comprovante de que houve negociação do produtor com o seu fornecedor de insumo. Essa baixa procura está aquém das expectativas", resume o vice-presidente de Agronegócios do BB, Luís Carlos Guedes Pinto. Ele garante que estão disponíveis no banco para contratação imediata R$ 531 milhões para 2.113 produtores, considerados de baixo risco. Segundo ele, para finalizar essas operações, só é necessário que produtor e fornecedor de insumos entreguem formalizem a negociação.
De acordo com Guedes Pinto, a demanda tímida dos produtores de menor risco pode inviabilizar o programa. "O banco precisa das operações de menor risco para fazer as de maior risco. Assim, conseguirá, na média, atingir uma taxa de risco suportável ao banco".
A suposta falta de interesse do produtor de menor risco - que aparentemente tem uma situação financeira mais confortável - pode estar relacionada à demora na liberação do FRA. Acredita-se que o agricultor com menos dificuldades já tenha feito o "frazinho", ou seja, o refinanciamento direto com as indústrias de insumos, sem a intermediação bancária. "Sabemos que isso ocorreu, mas não sabemos dimensionar", informa Glauber Silveira, presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja).
Para Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), é possível que ao longo desse um ano e meio - desde setembro de 2006, quando o FRA surgiu - os produtores já tenham sentado com os seus credores para tentar resolver os débitos. E, provavelmente, segundo Silveira, aqueles que estavam em melhor situação financeira conseguiram fazer essa negociação. "Aí o banco diz que as indústrias pegaram o filé e deixaram a pior parte para eles", reclama o dirigente da Aprosoja.
Outra hipótese do mercado é que a adesão ao FRA tenha ficado cara ao produtor. Simulação feita pelo BB referente a uma operação de R$ 1 milhão, mostra que ao final dos cinco anos (com carência de um), o valor pago atingirá cerca de R$ 1,307 milhão, com a incidência anual de juros de 11,25% (Taxa de Juros de Longo Prazo mais 5%). Além disso, cabe ao produtor o depósito de 10% do valor da operação para compor o fundo, o que elevaria seu ônus em mais R$ 100 mil. Silveira considera que as condições do FRA não são as "melhores do mundo", mas são mais favoráveis que a negociação direta com as multinacionais de insumos. "No começo da renegociação, em 2006, as indústrias queriam cobrar taxa de 3,5% ao mês", lembra Silveira.
Ele contesta que haja pouca procura pelo FRA e afirma que muitos produtores estão indo às agências e encontrando má vontade dos gerentes. "Nossas agências estão orientadas a ajudar o produtor. Se houver algum problema, peço que esse produtor entre em contato conosco em Brasília. Assumo esse compromisso publicamente", diz Guedes. Ele considera injustiça o BB ser apontado como o responsável pela lentidão. "Além dos R$ 531 milhões que podem ser contratados imediatamente, há outros R$ 262 milhões cuja liberação só depende de uma outra pendência".
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Fabiana Batista)